quarta-feira, março 10, 2010

Por que uma salada custa mais que um Big Mac?


Uma lei chamada The Farm Bill (algo como “a lei da fazenda”) está causando polêmica nos Estados Unidos. Por destinar bilhões de dólares a subsídios que vão para a criação de animais, o governo americano vem incentivando a produção de carne e derivados de leite – os mesmos produtos que contribuem para crescentes taxas de obesidade e doenças crônicas, conforme relata o site PCRM (Comitê dos Médicos para Medicina Responsável). Frutas e verduras recebem menos de um por cento de subsídios governamentais, alerta o site.

Na mesma direção vai o Economix, blog do New York Times, que inverte a pergunta da figura acima e questiona por que um Big Mac custa menos que uma salada. “Graças ao lobby, o Congresso escolhe subsidiar o tipo de comida que menos devíamos comer”. Com o auxílio de um gráfico, o blog ainda lembra que muitos alimentos saudáveis (como frutas e verduras) vem se tornando bem mais caros do que os que fazem mal à saúde.

Recentemente, a Organização Mundial de Comércio (OMC) autorizou o Brasil a retaliar os Estados Unidos com o reajuste de preços de uma série de produtos importados de lá – em alguns casos o aumento pode chegar a 100%. Isso por conta dos prejuízos causados à economia brasileira pelo subsídio que o governo dos EUA concede aos seus produtores de algodão. Mas se teremos peito para encarar mesmo essa disputa, aí já é outra questão.

Ao menos por aqui ainda é possível comer boas saladas e por um preço razoável. O lado ruim da notícia é que só queremos comer Big Macs.

Thiago Mattos

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segunda-feira, outubro 26, 2009

A corrupção-nossa-de-cada-dia

De pouco adianta reclamarmos tanto da corrupção que impera no país se somos tão coniventes com a corrupção-nossa-de-cada-dia, aquela que julgamos não fazer mal e, por isso mesmo, fazemos frequentemente.

Todos que xingam os políticos e continuando votando precisam de uma vez por todas entender que eles não se elegem à toa: recebem votos e são eleitos. E é o que cada um decide - e como decide - na hora de votar que realmente faz a diferença (Ultimamente, tenho decidido não votar ou anular, mas estou sempre à procura de um candidato que conquiste o meu voto).

Além de tudo isso, a corrupção deve ser combatida começando por uma mudança de atitudes geral. De TODOS! Se não, amigo, não adianta. Então, ou a gente continua reclamando só por reclamar mesmo ou nos sentimos parte do que falta para melhorar e fazemos algo sobre isso.

Chega de dar um cafezinho aqui e outro ali como propina, de molhar a mão do policial quando estamos errados, chega dessa mania de querer sempre sair ganhando e levar vantagem em cima de todos. Ou ainda de "deixar para lá" os centavos quando não nos devolvem nosso troco certo, de querer passar na frente da fila... Enfim, exemplos não faltam.

Precisamos aprender a viver em sociedade, pois quando apenas um sai ganhando, muitos perdem. Precisamos entender que o que é público não é um bem privado e, portanto, não pode ser usado para beneficiar a poucos. Já temos que ir fazendo listinha das figuras políticas execráveis que já bagunçaram demais por aqui, para que assim a gente saiba decorado que, no que depender de nós, nem eles nem quem anda com eles jamais serão eleitos de novo.

E já que o assunto é mudança, ok, vamos falar um pouco sobre as drogas. Está na cara que quem consome drogas ilegais está alimentando um mercado que só mal a todos que afeta. Sem essa de discurso moralista de que drogas é uma coisa do demônio mas, na boa, se não houvesse tanta demanda, não haveria tanta oferta. Então, como é possível imaginarmos que a violência não tem a menor relação com o consumo impulsionado e incentivado pelo tráfico de drogas.

É bem simples: apenas não consigo entender como as pessoas querem ao mesmo tempo viver em um país bom e justo não fazer nada para que isso aconteça. É como se nossas ações, como a corrupção-nossa-de-cada-dia ou o baseado-nosso-de-cada-dia não acarretassem em uma série de consequências em cadeia. Está na hora da gente falar sério.

É muito egoísmo da parte de alguns quando pagarmos um preço tão caro para que possam tranquilamente fumar sua maconha, cheirar sua cocaína etc. As drogas devem ser tratadas como uma questão de saúde pública e a sua descriminalização ou legalização devem ser discutidas. Mas enquanto não acontecem, seria um enorme gesto de nobreza se aqueles que ainda têm a opção de consumir ou não as drogas quem vem do tráfico simplesmente as boicotassem. Mas a grande verdade é que não há homem ou mulher para isso.

Ou paramos de ser ridículos e calamos a boca ou mudamos logo essa joça com as próprias mãos!

Thiago Mattos.

PS: Imagem de http://rasuralivre.blogspot.com/

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quarta-feira, outubro 07, 2009

Worldmapper: uma nova forma de ver o mundo

Um projeto desenvolvido por geógrafos da Universidade de Sheffield, na Grã-Bretanha, mostra uma nova forma de ver os mapas do mundo.

Através do Worldmapper é possível ver como seriam os países se seus mapas levassem em conta indicadores como densidade demográfica, renda, usuários de internet, mortalidade infantil, entre outros.

Para se ter uma ideia, se o mapa do Brasil fosse visto a partir da concentração populacional, ficaria claro no desenho nossa imensa desigualdade não somente entre os estados, mas também entre as regiões.

Dá para aprender bastante com as mais diversas categorias lá no site, que também é muito bom para pesquisas. Fica a dica.

Thiago Mattos.

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terça-feira, setembro 08, 2009

Previsão do tempo (A gente merece este país)

Na volta do feriadão de 7 de Setembro, brasileiros de várias capitais do sul e do sudeste foram surpreendidos com o grande volume de chuva que toma das regiões.

Em Santa Catarina, quatro pessoas morreram em uma só madrugada; os prejuízos já atingem mais de 30 cidades no estado. Nos outros estados do sul, ventos acima de 100km/h também provocaram estragos.

Aqui em São Paulo, a situação é caótica. Praticamente não dá para sair de casa quando chove assim. Seja você pedestre ou motorista, certamente vai se arrepender de ter saído. Chove desde às 8h da manhã sem parar - 70% da chuva prevista para todo o mês de setembro.

Os rios Tietê e Pinheiros transbordaram e, além disso, foram registrados pelo menos 40 pontos de alagamento em toda a cidade. O conhecido e odiado trânsito paulista ficou ainda pior. Em decorrência do enorme volume de chuva, serviços de telefonia móvel e fixa deram pane.

Mas é apenas quando as chuvas caem que podemos ver como nossas grandes cidades são estruturadas para esse tipo de problemas. O lixo sobe, a água entope os bueiros, os carros ficam cobertos d'água, os trabalhadores enxarcados, finalmente a cidade que não pode parar é parada!

Aqui no Brasil, temos dinheiro para comprarmos submarinos, helicópteros e caças de guerra franceses (R$ 37,5 bilhões), temos a "dádiva" do pré-sal (valor ainda incalculável), vamos construir nosso trem-bala (estimado em R$34 bilhões)! Oba!

Pelo jeito, só não temos vergonha na cara. Ainda jogamos lixo na rua e também continuamos votando - dois péssimos hábitos, duas porcarias!

A previsão do tempo para os próximos anos: todos já sabemos: mau, muito mau!


Thiago Mattos.

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segunda-feira, agosto 17, 2009

Nossa comédia é uma piada... completamente sem graça!

Conhecida pelas listas que cria, a revista Forbes divulgou recentemente os nomes dos dez comediantes que mais ganharam dinheiro no período de um ano (2008-2009). Embora a maioria deles ainda seja desconhecida do público brasileiro, Jerry Seinfeld e Chris Rock encabeçam as primeiras posições.

Seinfeld fez muito sucesso com um programa de TV homônimo, exibido de 1989 a 1998, e até hoje colhe os frutos de seu sucesso. Ele é o número um da lista, com 85 milhões de dólares. Pelo jeito, propagandas para a Microsoft e shows de stand-up ainda lhe pagam muito bem.


No segundo lugar, Chris Rock embolsou 42 milhões de dólares. Inicialmente conhecido no sitcom Todo Mundo Odeia o Chris (Everybody Hates Chris), ele é um dos humoristas que mais têm atraído atenção. Além de ter lançado recentemente pela HBO um novo programa de comédia chamado Kill The Messenger, o comediante também ganha dinheiro com filmes, livros, dublagens, etc.

Aqui no Brasil, para ser comediante e bem pago ao mesmo tempo - e na mesma frase - ainda soa engraçado. Naturalmente alguns desfrutam de certa fama, principalmente na TV, mas, no geral, o humor brasileiro atualmente tem caminhado mais para a tragédia.

Se não contarmos os que não estão mais no ar - seja por morte ou aposentadoria - quais os grandes nomes do humor nacional que sobram? Chico Anysio estava congelado até pouco tempo, Ari Toledo sumiu, Bussunda morreu, Costinha também, sem falar de Oscarito, Grande Otelo e Mazzaropi.

A maioria dos programas de humor assistidos no Brasil são uma piada... completamente sem graça! Zorra Toral, A Turma do Didi, A Praça É Nossa, Pânico na TV, Toma Lá Dá Cá, é difícil nomear o pior de todos.

Talvez o "politicamente correto" tenha tornado as coisas mais complicadas, mas hoje em dia facilmente confundem ser engraçado com ser preconceituoso. E é bom lembrar que é possível sim sacanear homens, mulheres, brancos, negros, gays, judeus, asiáticos, e quem mais for preciso sem ter preconceito. Há uma linha sutil entre o que é realmente engraçado sem precisar ser ofensivo ou racista. Só que ainda não dominamos isso.

É uma linguagem que, se combinada à irreverência brasileira, pode fazer muito sucesso. Vejam, o Chris Rock critica os negros com uma propriedade singular e sem preconceitos. Não que você tenha que ser judeu para fazer piada de judeu ou gay para imitar uma bicha louca, mas esses exemplos nos dão uma dica preciosa. Dizendo que é impossível alguém encontrar sua alma gêmea, o comediante conclui: "Mesmo que aconteça, não será no tempo certo. Você é casada, ele é solteiro... Você é judia, ele é palestino..." E dispara: "Você é negra, ele é negro... Há sempre um obstáculo no caminho!".

Não quero explicar a piada a ninguém, mas espera aí! Não há nada de preconceituoso em dizer que algumas vezes os negros acabam evitando outros negros, pelo contrário, é muito engraçado dizer isso desta forma. Não há ofensa alguma aqui, apenas uma observação contundente de uma sociedade onde a ideologia da discriminação contagia até mesmo a quem é discriminado. O conteúdo da crítica é enorme é há uma baita sutileza na forma de dizer isso.

Mas ainda temos muito a aprender, principalmente que não há mais nada de engraçado em continuar dando tanta audiência a programas que só continuam porque ainda há quem os assista.

Thiago Mattos.

Colagem: Carlos de Castro





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terça-feira, fevereiro 03, 2009

O partido sem alma

A vida política brasileira há muito não desperta interesse algum na maior parcela dos cidadãos. Partidos como o PMDB estão aí para nos ajudar a entender o por quê.


Desde 1964, esse partido essencialmente sem alma sintetiza de forma vistosa o que é e como é feita a política no Brasil. Não importa o governo, ideologias, nada; o PMDB sempre estará ao lado de quem manda. E com essa fórmula mágica acaba sempre mandando também.

A recente vitória do partido para a presidência da Câmara e do Senado Federal demostra mais uma vez o grau de hegemonia política que faz do PMDB o partido mais influente da atual política nacional.

Vamos lembrar que o partido agora ocupa as duas presidências do Legislativo; cinco ministérios e diversas diretorias e presidências de importantes estatais, no Executivo; além de ter eleito uma boa quantidade de governadores e prefeitos no último pleito.

Com a eleição de José Sarney (AP) e Michel Temer (SP), controlarão um orçamento de mais de R$ 6 bilhões e uma estrutura com milhares de funcionários, emissoras de rádios e TV, gráficas, informativos diários, enfim, mandarão e desmandarão num bom pedaço do que é o Brasil. Isso sem mencionar a influência política que vem à reboque de tudo isso.

Assim ficaria fácil questionar como pode alguém se interessar por um jogo onde as cartas já estão marcadas. Dito o óbvio, fica a indagação: essa política nojenta que nos deixa apáticos ou por sermos tão apáticos temos o que merecemos?

Muito de "por que o PMDB é o que é" deve-se a mesma razão - quiçá um reflexo - de "por que somos como somos". E aí fica fácil entender as regras políticas que temos - nós as louvamos e aceitamos - e também por que simplesmente estamos assistindo continuamente a mais do mesmo.

Cada um de nós está acostumado a pensar primeiro em si, sem saber o que é pensar coletivamente. As pequenas vantagens, o lixo no chão, nossa ética é especial. Por isso, só no Brasil poderia haver um partido político como o PMDB - o partido sem alma.

Thiago Mattos.

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quinta-feira, outubro 16, 2008

Manchetes brasileiras

Na primeira página do UOL: "Policiais civis entram em confronto com policiais militares em SP".

No Globo Online: (Após libertar refém) "Rapaz blefa com a polícia e volta a fazer duas reféns em Santo André".

Primeira página do Jornal da Tarde, de SP: "Justiça passa fax para local errado e PF solta líder do PCC".

A quem estamos entregues?

Chamem o ladrão!

Thiago Mattos.

PS: Imagem: http://rasuralivre.blogspot.com/

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terça-feira, setembro 09, 2008

Brasil: Retrato das Desigualdades

Num país que se enxerga livre de qualquer tipo de preconceitos, racismo ou sexismo, e, ainda por cima, se gaba por ser multirracial, pode soar chocante o estudo do Instituto Econômico de Pesquisa Aplicada (IPEA) publicado essa semana que diz que mulheres e negros ainda têm muita desvantagem comparados aos homens brancos. Chama-se Retrato das desigualdades de gênero e raça.

Entre os tantos dados, chamam a atenção principalmente o fato de que a renda média de uma mulher corresponde a dois terços da renda de um homem e - pasmem - a renda média dos negros corresponde a metade da de um branco.

O estudo do IPEA, apontando uma ínfima melhora ao longo dos anos, reconhece que essa melhora não provocou mudanças efetivas nas condições de vida entre mulheres e negros - maioria da populção brasileira. E lembra: "os negros trabalham mais durante mais tempo ao longo da vida, entrando mais cedo e saindo mais tarde do trabalho".

Como ficam a propaganda que exalta a mulata e o discurso de que somos um país multicolor, justo e igual? Quantos estudos mais serão necessários para que se implementem políticas públicas que reconheçam que a questão no Brasil não se reduz a apenas ser "pobre" ou "despreparado"? Parece às vezes que quanto mais sabemos, menos queremos saber.

Estranho... Estamos todos no mesmo Brasil?

Thiago Mattos.

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quarta-feira, maio 28, 2008

Vai parar?

A nova campanha do Ministério da Saúde traz uma questão interessante: as imagens chocantes impressas nos maços de cigarro conseguem, afinal, atingir seus objetivos? Alguém realmente deixa de fumar de tanto ver fetos podres, pulmões estragados, cabeças abertas ensangüentadas, etc. etc. etc? Não tenho tanta certeza.

Os fumantes (de maneira geral) sabem dos riscos do cigarro à saúde, mas as informações sobre tais malefícios não fazem (por si só) alguém parar de fumar.

Todos já sabem que “este produto contém mais de 4.700 substâncias tóxicas” mas o vício e o prazer de fumar acabam falando mais alto.

Então qual é o verdadeiro impacto causado pelas referências ao aborto espontâneo, derrame, envelhecimento precoce, impotência sexual (entre outros problemas)? Dados da Organização Mundial da Saúde mostram que as fortes imagens, se não fazem as pessoas largarem imediatamente o vício, ao menos as fazem repensar.

De qualquer forma, a nova campanha está aí, amparada por números e números.

200 mil pessoas morrem por ano no Brasil em decorrência de doenças associadas ao tabaco - o que gera uma despesa de R$ 400 milhões por ano somente em atendimento médico. O Brasil tem cerca de 23 milhões de fumantes. Faça você mesmo as contas.

O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, defende ainda a taxação dos cigarros, já que o preço no Brasil é um dos mais baixos no mundo. Para se ter uma idéia, um maço de cigarros na França custa em média € 5 (quase R$ 15). Além disso, uma medida ainda sem data para ser votada no Congresso quer proibir o fumo em ambientes fechados.

Mas fica a pergunta que não quer calar: se não informação, fortes imagens ou o que mais vier para esclarecer e alertar os malefícios do cigarro, o que realmente é preciso para parar?

Thiago Mattos.

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domingo, maio 25, 2008

"Maio já está no final..."

O mês de Maio já vai acabando com uma sensação de que logo logo o ano também já será outro. É impressionante: quanto mais velhos ficamos, mais rápido o tempo parece passar. De qualquer forma, não vim até aqui pra isso.

Essa semana, duas notícias especialmente me chamaram a atenção.

Uma delas é um artigo do New York Times, que discute a nova situação econômica do Brasil, mostrando como agora os brasileiros da classe média podem ter acesso a bens de consumo, diferentemente de alguns anos atrás.

O artigo elogia claramente a política econômica do governo Lula - "administração competente" são as palavras exatas - comparando a atual conjuntura a um momento anterior, onde tudo era mais difícil no país.

“Antigamente quando os EUA espirravam, o Brasil pegava pneumonia, mas este não é mais o caso”, declara Marcelo Carvalho, diretor executivo do Morgan Stanley, numa interessante alusão a um passado nem tão distante assim.

Só ficou faltando falar das consequências deste novo modo de consumo, como os insuportáveis engarrafamentos diários nas grandes cidades, decorrentes do novo poder de compra da classe média brasileira. Mas isto é um apenas um detalhe, não é?

Bem, para acessar uma versão em português do artigo, clique aqui. A versão integral em inglês, aqui.

***

A outra notícia vem da TV.

É que Os Simpsons já estão na 19ª. temporada (um recorde!) e continuam cada vez mais ácidos e pungentes, com um invejável vigor. Os episódios da nova temporada trazem cenas que ainda darão muito o que falar, como os seios da Pamela Anderson balançando no ar.

A família que vez por outra é censurada (e não apenas na Venezuela) por conta de seu comportamento politicamente incorreto, continua mostrando estar a frente de seu tempo. Até hoje, poucos entendem que a série não é um desenho animado para crianças.

Enquanto a maioria das emissoras a exibem no horário nobre, a Globo insiste em exibir a série em sua programação matutina destinada às crianças, no saco de gatos que é a TV Globinho.

De qualquer forma, acompanhar esta família é estar em dia com o mundo contemporâneo e, de modo crítico, entender as loucuras pelas quais passamos. Por isso e muito mais, Os Simpsons – uma ironia sofisticada e debochada da clássica família americana – devem ser assistidos e deliciados.

Uma boa semana para todos!

Thiago Mattos.

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quarta-feira, abril 30, 2008

Innocent Project

27 anos após ter sido preso acusado de violentar e estrangular sua noiva, James Lee Woodward finalmente foi inocentado graças às provas obtidas através de exames de DNA, e graças também a Innocent Project – organização sediada em Nova York e especializada nesse tipo de caso.

O cidadão texano de 55 anos havia esgotado todas as possibilidades de recorrer. Em 1981, a Corte de Dallas o condenou baseado nas declarações de duas testemunhas. Agora, 27 anos depois, duas provas distintas de DNA puderam enfim provar a inocência que ele clamava desde o primeiro dia.

Woodward é a típica vítima dos erros judiciais (e não somente) nos EUA: é negro. Essa não foi a primeira vez que este tipo de situação ocorreu. É a 18ª somente em Dallas. E o que chama mesmo a atenção desta vez é o longo tempo de espera – 27 anos – o maior tempo em que um prisoneiro erroneamente condenado já passou. Um tempo irrecuperável.

Em outro caso semelhante, Thomas McGowan foi recentemente libertado também com base em exames de DNA, após passar 23 anos na prisão.

Que o sistema prisional do Texas (especialmente) está com problemas sérios, isto é fato. Em todo o estado, mais de 30 pessoas condenadas com o mesmo perfil já foram absolvidas com base no mesmo tipo de provas.

O advento do DNA como prova tem ajudado enormemente na resolução de casos judiciais complicados, mas não podemos fechar os olhos para a questão racial presente em cada uma delas. Errar tantas vezes da mesma forma não pode ser uma infeliz coincidência. E não é.

A notícia do erro judicial vem do Texas, mas todos sabemos que poderia muito bem ter vindo do Brasil. Principalmente por não termos ainda nenhum Innocent Project. Por enquanto, nosso único projeto tem sido matar ou prender.

Thiago Mattos.

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segunda-feira, abril 28, 2008

Fala, meu povo! (matando a cobra e mostrando o pau)

Declarações inusitadas ouvidas acidentalmente de manhã, de um programa de TV:



"Nunca aconteceu isso nesse bairro aqui..."
(De uma paulista entusiasmada e sorridente pela oportunidade de dar uma entrevista)

"A atração do fim de semana foi essa"
(De um outro que foi com toda a família visitar o local do crime)

"Eles estão montando palanque como se fosse carnaval"
(De uma moradora, revoltada com a muvuca em seu bairro)

"Eu sou de Ponte Nova, MG. Andei 850 Km pra mostrar a indignação do país nesse caso tão monstruoso... Sai de casa sexta-feira e estou aqui sem dormir até agora [Domingo], me alimentando muito mal e ficando na cruz numa faixa de 10, 11 horas por dia"
(De um penitente mineiro que usava uma máscara e carregava nas costas uma cruz com fotos da família Nardoni, pedindo justiça)

"Minha imagem vai ser mais aqui embaixo... Na portaria... Na queda da Isabella..."
(De um cinegrafista contando o que filmará na reconstituição do crime. No caso, referia-se à boneca de R$18 mil que seria jogada pela Perícia, simulando o assassinato)

"Diz que tem um apartamento que cobrou 15 mil. A escolinha parece que cobrou 10 mil, coisa assim"
(De um morador especulando sobre o aluguel cobrado pela vizinhança à imprensa para lugares estratégicos)

"Se eu soubesse eu podia ter alugado, porque do meu apartamento eu enxergo direitinho o quarto"
(De um morador sorridente, mas frustrado pela ignorância e triste pela oportunidade perdida)

"As emissoras de TV começaram a me procurar querendo emprestrar [sic] minha sacada. Eu falei 'não', que seria um absurdo, que isso ia me trazer problemas, e elas resolveram me fazer um proposta: 'vamos alugar então, a gente paga e você nos cede o espaço'..."
(Da proprietária de uma salão de beleza próximo à Delegacia onde se concentram as investigações do caso, que mudou rapidinho de idéia, declarando ganhar em torno de R$ 1.500 como aluguel)

"4 na sacada e 3 na laje"
(Da mesma pessoa anterior, respondendo a quantas emissoras havia recebido no estabelecimento)

"Nós pegamos uma amizade e quando vocês forem embora, a gente vai sentir saudades"
(Da mesma proprietária, que certamente sentirá falta do dinheirinho extra)

"Domingo é um dia tão vazio, né? Geralmente a gente não tem nada mesmo pra fazer..."
(De um entediado cidadão respondendo por que foi assistir à reconstituição do crime)

Enfim, cada povo com o que merece, certo?

Thiago Mattos.

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terça-feira, novembro 20, 2007

Viva Zumbi!

No dia em que se celebra a consciência negra no país, está sendo divulgado mais um estudo (dos pesquisadores Marcelo Paixão e Luiz Carvano) sobre a desigualdade racial brasileira analisada a partir do padrão de mortalidade. O estudo mostra, entre outras coisas, que a violência é a maior causa de mortes entre homens negros.

De 1999 a 2005, a taxa de assassinatos por 100 mil homens brancos caiu de 36 para 34 mortes. No mesmo período, a mesma taxa entre os homens negros aumentou de 52 para 61 por 100 mil. Uma melhoria dos índices entre os brancos e uma piora entre os negros é expressiva. Fica claro que a cor determina muito as chances de ser assassinado, quanto mais negro a pessoa for.

Sabemos que o racismo é um dos piores problemas da sociedade brasileira, e a tentativa constante de renegar esse assunto-tabu é uma das barreiras à sua superação. Uma sistemática exclusão dos negros é o argumento-chave para as medidas de inclusão serem postas em prática de uma vez por todas. Um debate neste sentido precisa envolver toda a sociedade.

A consciência negra precisa ser ampliada e reconhecida para que assim finalmente alcançemos a tão sonhada e mítica democracia racial. Precisamos dialogar, compreender e pôr em prática os caminhos para uma urgente igualdade racial. Não podemos mais rir das piadas racistas e preconceituosas, não podemos mais compactuar com a idiotice, nem sermos apáticos frente à estupidez que passa de geração a geração, no automático.

Olhemos para nós mesmos e nossa riqueza multicolorida, olhemos para o protagonismo essencial do negro em nossa história, para que assim possamos ver que não há mais porque ninguém ter vergonha de ser negro. Aí então, ninguém mais vai querer alisar o cabelo nem usar lentes azuis, e muito menos deixar passar em vão piadas racistas que fazem de idiota aos que ouvem e de estúpido quem a conta.

Viva Zumbi dos Palmares!

Thiago Mattos.

PS: Imagens de http://www.ribimbocadaparafuseta.blogspot.com/

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segunda-feira, outubro 08, 2007

Extrabrasileiros

O artigo publicado recentemente pelo apresentador de TV Luciano Huck na Folha de S. Paulo é desmoralizante, indigno e repugnante. Contudo, temos uma oportunidade ímpar de entender a cabeça de nossa elite financeira, que cisma em não olhar para onde vivemos – esse país estranho chamado Brasil.

O apresentador reclama por conta de um relógio que lhe fora roubado por “dois pobres coitados”, se diz revoltado e pede para chamar o Capitão Nascimento (o anti-herói do filme Tropa de Elite que executa sumariamente outros “pobres coitados” nas favelas).

Huck diz estar à procura de um salvador da pátria, alguém que lhe garanta proteção, cuide de sua propriedade e lhe tranqüilize ao andar com seu Rolex de sabe-se lá quantos zeros no país do faz de contas (já que paga uma fortuna de impostos).

Ao longo do seu texto, chamou-me a atenção em especial um termo usado por ele nesta frase: “Alguém consegue explicar um assassino condenado que passa final de semana em casa!? Qual é a lógica disso? Ou um par de ‘extraterrestres’ fortemente armado desfilando pelos bairros nobres de São Paulo?

A palavra ‘extraterrestres’ é pontual e explica muito a lógica deste sistema, onde os pobres (coitados ou não) são domesticados com a ajuda de estúpidos programas de TV, de modo a tornarem-se apáticos em relação à injusta distribuição da riqueza social no país, percebendo-a ainda como a ordem natural das coisas – como se fossem excluídos por acaso, e ninguém tivesse nada a ver com isso.

Extraterrestres. É exatamente assim como são vistos os “pobres coitados” que roubam, vendem mercadorias ilegais, CDs piratas, drogas e matam por nada. E, como se não fossem deste planeta, como se não pertencessem a este país, vagam pelas ruas em busca da sobrevivência, da existência social, por assim dizer.

São ignorados em todos os sentidos do termo e, a não ser quando percorrem as páginas policiais, praticamente não existem. Quando a realidade nos forca a vê-los, a encará-los, não os reconhecemos como compatriotas. Tudo é diferente: seu jeito de falar, de andar, de se comportar, de dançar e também seu jeito de roubar.

Não queremos vê-los ou entendê-los, queremos nos ver livres deles. São para nós equivalentes aos imigrantes ilegais dos EUA, com uma pequena diferença de sermos do mesmo país. Vá lá, são extrabrasileiros.

No fim de tudo, o cidadão que se diz humilhado ao ter um 38 na testa e quase morrer por causa de um relógio compartilha sua dor com outros tantos que são lembrados a toda hora que a realidade existe. Porém, não adianta tentar maquiá-la com projetos sociais ou tentar modificá-la com a pena de morte promovida pelo tal Capitão Nascimento. Essa não é a solução.

Nada funcionará se não mudarmos nossa maneira de enxergar a lama em que estamos e como nós mesmos a fazemos e a deixamos fazer. Nada mudará se não percebermos nossa maneira peculiar de enxergá-la, nosso distanciamento e nossos preconceitos. Nossa cegueira cega que não quer ver que não está vendo.

Vejam por si só, acreditem em mim: extrabrasileiros existem.

Thiago Mattos.

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terça-feira, setembro 18, 2007

Luz!

Na última semana, após confusões dignas de um país do faz de conta, onde seguranças e parlamentares se atracam em pleno Congresso Nacional antes da votação pela cassação do presidente do Senado envolvido em falcatruas, Renan Calheiros finalmente foi inocentado por seus colegas – o que já era mais que esperado, infelizmente.

Vitória do governo que, além de não correr o risco de perder o posto da presidência do Senado (que na matemática política sai mais em conta do que expurgar mais uma entre tantas ervas-daninhas do sistema), ainda conseguirá sem muitos transtornos aprovar a prorrogação da CPMF (um imposto difícil de compreender e identificar seus resultados) por mais alguns anos. Não bastasse a estranheza de tudo isso por si só, ainda surge como relator da pauta um homem que outrora também havia sucumbido às tentações do poder e, por isso mesmo, teve que sair: Antonio Palocci (alguém se lembra do caseiro?).

Derrota da verdade, da honestidade, da transparência (para que tanto segredo na hora de votar?), da ética (que como um mito, muitos a clamam mas poucos a vêem), de quem paga os impostos (inclusive a CPMF), enfim, derrota do povo como um todo, que devido às circunstâncias parece não existir.

Enquanto nosso presidente da república faz seu tour pela Europa, mais índios são assassinados sem que isso cause muita estranheza, mais acidentes mal-explicados acontecem (e da mesma forma não despertam muitos interesses), mais corrupção segue seu caminho cotidiano sem muitas perturbações, e assim percebemos o mal que nos faz a tragédia diária dessa sensação de impunidade como norma corrente.

Com os absurdos que aqui acontecem subestimando nossos maiores delírios, é preciso forças para seguir adiante acreditando numa virada de jogo, numa sociedade mais justa e humana onde haja maçica partipação popular numa solução para isso tudo. É preciso urgentemente que comecemos a ver uma luz no fim do túnel, nem que a criemos e a causemos, caso contrário podemos ficar ainda mais cegos.

Thiago Mattos.

Imagem: http://rasuralivre.blogspot.com/

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domingo, agosto 05, 2007

Me deixa falar mal do homem, vai...

A tragédia acontecida no dia 17 de Julho poderia ter sido evitada, caso algumas providências fossem tomadas antes da fatalidade. Houve uma soma de erros e precisamos consertá-los. Muitos são os responsáveis, mas é preciso cuidado com quem anda apontando dedos a esmo – para que lado for.

É claro, evidente e vergonhoso como setores da mídia estão utilizando politicamente 199 mortos – inclusive o piloto, que tinha 27 anos de profissão e mais de 13 mil horas de vôo, também está sendo culpado – para uma tática que tenta atingir a todo custo o Palácio do Planalto mas, ironicamente, nunca funciona. É o efeito teflon que não deixa nada de ruim grudar à imagem do presidente Lula (vide a última pesquisa Datafolha e o peso da opinião dos que não viajam de avião).

Por outro lado, há também os cegos do castelo. Inexauríveis defensores do presidente, do seu partido e da sua política, seja ela qual for, que assusta mais do que aqueles que estão sempre a atacar.

É impressionante como alguns, faça chuva ou faça sol, aconteça o que acontecer, já se colocam de antemão a favor de Lula. Isso dá medo.

O sanguedbarata não tem (nem quer ter) nenhuma ligação partidária ou compromisso com qualquer doutrina, senão com a sua própria consciência de livre-pensador. Por isso, assusta-se com as incansáveis defesas que o imbatível presidente recebe, de modo que chega a ser agressivo a quem quer que tente o atacar.

Ouso a sugerir que funciona como um patrulhamento. Se você fala mal do Lula, você não é legal, você é da direita, você não gosta de trabalhadores, você é feio e bobo! Gente, o que é isso? Não podemos engolir tudo que nos empurram e defender o governo a todo custo. Vamos pensar que às vezes ele está errado, ok? (Tudo bem, muito mais que "às vezes").

Assim, o sanguedbarata quer e irá manter sua independência. Por isso, não se assustem se daqui a alguns dias este blog defender alguma ação do governo (como já fez algumas vezes), nem se voltar a atacá-lo quando achar necessário. Me deixa falar mal do homem de vez em quando, vai...

Da mesma forma, precisamos ter cuidado com as críticas mal-intencionadas, que só querem tirar proveito da situação e não trazem nada de saudável à discussão. Mas dessas já sabemos todos de onde vêm e, logo, podemos nos defender melhor.

Viva a liberdade!

Thiago Mattos.

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sexta-feira, agosto 03, 2007

Esse é o Brasil


Às vezes parece que o Brasil não existe, como se fosse um país imaginário onde o que alguém pensasse de mais absurdo acontecesse.

Imagina só se tivéssemos um terrível acidente de avião há menos de um ano, envolvendo um jato Legacy e um Boeing da GOL causando um estrago de 154 vidas e tudo ficasse por isso mesmo. Se for possível – por mais absurdo que pareça – imagine que o transponder do Legacy havia sido desligado pelos pilotos. Imagina que eles, cidadãos norte-americanos, deixassem o país e voltassem aos EUA como vítimas.

Agora, imagina se desde então começasse aquilo que se convencionou chamar de “crise aérea” e “caos nos aeroportos”... Se os Controladores de Tráfego Aéreo se amotinassem revelando suas precárias condições de trabalho... Se as companhias aéreas começassem a vender cada vez mais passagens, causando overbooking e recordes de faturamento.

No meio de tantos absurdos, não seria demais imaginar também um ministro dizendo que o caos nos aeroportos é sinal de prosperidade. Nem tampouco uma ministra sugerindo a quem esperasse nas longas filas: “relaxa e goza”.

Não desista: imagine se chegando em sua casa no começo da noite de uma terça-feira do mês de Julho, você escuta da TV aquele chamado que te dá medo, dizendo que algo horrível aconteceu. Então, eles te informam a tragédia no Aeroporto de Congonhas (SP), onde nenhum bombeiro pode entrar no avião que arde em chamas contra um prédio onde pessoas trabalhavam e o risco de mais mortos é grande.

Imagine que após esta trágica notícia, o canal volte à sua programação normal com as novelas e nenhuma outra rede de TV aberta cubra a tragédia – o Pan certamente daria mais audiência. Imagine que você não tenha TV à cabo.

Então, depois de toda aquela angústia você demoraria um pouco até entender o que se passou: um Airbus A320 da TAM havia se chocado contra o prédio da própria empresa aérea, TAM Express, do outro lado da curta pista de pouso de Congonhas, matando 199 pessoas no maior acidente aéreo da história do país.

Haveria muita coisa para se imaginar, mas seria difícil entender: a condecoração de funcionários da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) logo após a tragédia, as comemorações obscenas de um assessor especial do presidente, a demora de 3 dias para um pronunciamento do Presidente Lula à nação, o próprio aeroporto e a falta do grooving, a completa falta de responsabilidade da TAM (que pouco se fala), a culpa no piloto morto e a procura por bodes expiatórios, o sensacionalismo criado e a falta de qualquer respeito ao valor da vida humana.

Mas não imagine mais, esse país existe. Esse lugar onde tudo de mais absurdo pode acontecer - e acontece - existe.

Esse é o Brasil.

Thiago Mattos.

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segunda-feira, junho 25, 2007

A covardia só muda de sotaque

A notícia de que cinco jovens moradores de condomínios de luxo na Barra da Tijuca espancaram covardemente uma empregada doméstica e roubaram sua bolsa na madrugada de sábado revela um triste lado de nosso país, evidenciado especialmente nas grandes cidades.

Esse comportamento sádico dos agressores estudantes de turismo, administração, gastronomia, informática e direito, que justificam tamanha barbaridade dizendo que confundiram a vítima com uma prostituta – pasmem! – apenas reflete a maneira como nossas elites em geral tratam nossos pobres: com a mais pura e sincera humilhação, com vontade de matar.

Os cinco fortes jovenzinhos da Barra da Tijuca, que demonstraram o estrago que fazem juntos em uma só mulher, em nada diferem dos que atearam fogo a um índio pataxó há 10 anos atrás em Brasília. Ou dos falsos punks que mataram um garçom a facadas também nesse último final de semana em São Paulo. Todos são privilegiados financeiramente em relação à realidade da maioria das famílias brasileiras e nenhum deles têm qualquer noção de ética, bondade ou respeito. A corvadia só muda de sotaque.

Estão sendo formados pelos seus pais para serem esse tipo de gente mesmo, sem qualquer compromisso ou consciência social. Daqui a alguns anos, muitos se tornarão diretores de importantes empresas, respeitáveis advogados, executivos que estarão à frente de funções que lhe garantam suficiente poder para dar continuidade ao mesmo projeto de vida que mantém nosso país como é: desigual e injusto, seletivamente cruel e bárbaro, de modo que a política de extermínio aos pobres continue vagarosa e imperceptivelmente.

Assim os poderosos conservam seu poder e assim tem sido há 500 anos. Não sabemos quanto tempo os jovens-de-comportamento-desviante ficarão presos, nem tampouco se ficarão. A impunidade é um privilégio para poucos nesse país. E é claro que tudo seria bem diferente se fossem “favelados” agredindo uma empresária. De qualquer forma, tentemos vislumbrar uma esperança nisso tudo.

Temos a sorte de podermos contar cada vez mais com gente disposta a fazer justiça como o taxista que anotou a placa do carro dos jovens agressores, ato heróico de um anônimo. Talvez nem tudo esteja perdido, ainda que o futuro da nação esteja nas mãos dessa juventude doentia e ignorante – reflexo piorado de todas as gerações anteriores.

Thiago Mattos.

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terça-feira, maio 22, 2007

CPI em todo mundo!

Sidarta Gautama (que na história budista largou sua vida de príncipe para atingir o nirvana) - quem diria - teria seu nome associado à construtora que, segundo os relatórios da Polícia Federal (PF), pagou uma propina de R$ 100 mil ao então ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau. A explicação é que o dono da Gautama (construtora) se diz budista. Sabe-se lá que budismo é esse.

Todo esse estardalhaço para nada, pois qualquer brasileiro sabe que no Brasil funciona assim: “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”, isto é, a Igualdade escrita em nossa Carta Magna nunca foi igual. Quanto melhor um cidadão se coloca na esfera pública – seja exercendo um mandato ou ocupando um cargo – mais privilégios ele tem a sua disposição e, logo, é mais difícil de puni-lo.

Fico maravilhado em como a PF trabalha bem e traz resultados. A cada mês, um novo escândalo político. Ora, ou corrompemos de modo muito sedutor (e por isso tanta coisa podre aparecendo), ou tudo está sendo transformado em espetáculo, passível de venda e consumo.

Não ponho minha mão no fogo por ninguém. Estudo os problemas deste país e nossa história de corrupção. Sei como é difícil pôr na cabeça de quem ocupa um posto público que aquilo não é seu – esse ranço patrimonialista grudou. Posto isto, não pretendo eximir ninguém de culpa. A probabilidade de que tudo ainda seja muito pior do que mostram os jornais é grande.

Fatos como o desespero dos parlamentares frente a qualquer sugestão de criação de uma CPI dentro do Congresso (apenas defendida pelo PSOL e PPS) e investigando os indícios de aliciamento de parlamentares em troca de emendas, diz muito. No fim das contas, os partidos se protegem. É vergonhoso.

Por outro lado, não consigo deixar de pensar que há algo de podre em nosso reino quando um assunto é alardeado sem ser discutido do jeito que é. Por exemplo, por que a grande imprensa não explora o tema do financiamento de campanha, ou da relação entre os mandatos de Brasília e as emendas vendidas? Por que não é divulgado quem banca cada ocupante de uma cadeira no Congresso? Quem representa os interesses de quem?

No final, com tanta informação truncada e acusação atrás de acusação, parece que nossa grande mídia corporativa (aquela que precisa vender) apenas nos entretém. Caso contrário, poderia ter seu calcanhar de Aquiles exposto. Afinal, quem lhe disse que sua ficha é limpa?

Já sei. Vamos mandar a PF investigar!

Thiago Mattos.

Imagem:
http://www.ribimbocadaparafuseta.blogspot.com/

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quarta-feira, abril 25, 2007

"Oh Captain, my Captain"

Ontem, o presidente Lula lançou em Brasília o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), reconhecendo o Brasil como um dos piores países na área e propondo elevá-lo à condição de um melhores. Longo caminho, ahn?

Não é preciso muito esforço para constatarmos que somos mal-educados (em ambos os sentidos) e precisamos urgentemente de instrução de qualidade. A melhoria da educação brasileira é condição sine qua non para que nossos cidadãos tenham uma vida melhor e melhores salários, saibam ponderar suas escolhas, sejam esclarecidos quanto ao que se passa no mundo para poder modificá-lo e disponham do mínimo de senso crítico.

Uma educação melhor também precisa de mais que bons números na estatística. Envolve qualificação e pagamento apropriado aos profissionais da área; financiamento dos estudantes carentes com livros, transporte e alimentação; uma decente infra-estrutura escolar com laboratórios, quadras e o que mais possa envolver os alunos; exige muita determinação e vontade política na transparência com os gastos do Plano.

Do jeito que ia nossa educação, qualquer proposta de melhora chegaria muito bem-vinda, concordam intelectuais e analfabetos. Agora, é ver para crer.

Thiago Mattos.

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