segunda-feira, março 15, 2010

Santo Geraldão


Semana passada fui até Osasco cobrir o assassinato do cartunista Glauco e seu filho, Raoni. O clima era de profunda tristeza e choque. Chamou a atenção a quantidade de jovens adeptos da religião - todos vestindo seus impecáveis uniformes branco com detalhes em verde.

Como desenhista, Glauco desbundou as tirinhas, principalmente com o personagem Geraldão. Como entusiasta do Santo Daime, fundou a igreja Céu de Maria em busca da salvação (especialmente para os que se perdiam no mundo das drogas).

O crime da semana passada chama atenção não só pela brutalidade, mas por trazer novamente à tona a velha discussão sobre a ingestão de ayahuasca - consumida durante as sessões do Santo Daime.

O famoso artigo 5 da Constituição garante a liberdade de consciência de crença e assegura o livre exercício dos cultos religiosos. Mas não vai demorar muito para que o Santo Daime seja atacado, por conta do alucinógeno que demanda em seus rituais. Programas de TV, fóruns de discussão, entrevistas com especialistas, ouviremos de um tudo daqui pra frente.

Mas dá para culpar todo um rebanho por conta de uma ovelha desgarrada? Quão realmente perigoso é o consumo de um alucinógeno como a ayahuasca durante os rituais do Santo Daime? O bom é que haja espaço para essas e outras questões, e que após serem exaustivamente debatidas possamos ter ao menos o início de respostas satisfatórias.

Thiago Mattos

PS: Resultado da apuração em http://veja.abril.com.br/170310/morte-cartunista-p-084.shtml (requer cadastro)

PPS: Aprenda a desenhar o Geraldão, clique aqui

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terça-feira, abril 14, 2009

As novas paredes de Phil Spector

Na última Segunda-feira (13), o produtor e compositor Phil Spector, 69, foi condenado em Los Angeles pelo assassinato da ex-atriz Lana Clarkson, 40. O crime, ocorrido há mais de 6 anos atrás em sua casa, pode levá-lo a 18 anos de prisão.

Conhecido no mundo da música por sua engenhosa técnica de gravação chamada de "Wall of Sound" ("parede de som", em inglês), Phil Spector começou a trabalhar nos anos 60, gravando e produzindo artistas como John Lennon (no álbum "Rock'n'roll"), George Harrison ("All Things Must Pass"), Ramones ("End Of A Century") e Beatles ("Let It Be"), entre outros.

Também compôs clássicos como "You've Lost That Lovin' Feeling" (gravado por The Righteous Brothers), "Deep River - Mountain High" (Ike e Tina Turner) e "Be My Baby" (The Ronettes) - foi casado com Ronnie Ronette, a cantora principal do grupo.

Phil Spector já era famoso por seus métodos não-convencionais de gravação. A lenda de que ele sempre portava uma arma em estúdio para amedrontar os músicos que errassem, foi confirmada na página 125 da auto-biografia recém-lançada por Eric Clapton:

"Trabalhar com Spector foi uma experiência e tanto. Eu o achava um cara realmente doce, talvez um pouco excêntrico, mas o rumor era de que ele carregava uma arma, então eu estava um pouco desconfiado."

Um julgamento anterior em 2007 já havia sido anulado por falta de unanimidade do júri. Desta vez, as cinco mulheres que testemunharam, acusaram Spector de já ter lhes apontado uma arma antes, o que foi determinante para sua condenação. Contudo, a defesa do produtor ainda pretende recorrer do veredicto.

Nota de curiosidade: Phil Spector usava no terno um bottom mostrando seu apoio ao Presidente Obama, que dizia: "Barack Obama Rocks!" (algo como "Barack Obama é demais!"). Ao que tudo indica, Phil Spector deve mesmo conhecer agora as paredes de concreto.

Thiago Mattos.

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terça-feira, julho 08, 2008

Somos ridículos


Não há palavras que descrevam a (vergonhososa? desastrosa? assassina?)
atuação da Polícia Militar do Rio de Janeiro que terminou na morte de mais uma criança neste último Domingo, dia 6 de Julho, a 50 metros do prédio onde morava, durante uma perseguição de policiais a bandidos na zona norte da cidade.

Desta vez a vítima foi um menino de 4 anos incompletos, João Roberto Amorim Soares. Mas a pior notícia infelizmente nem é essa. Aí vai: do que jeito que vão as coisas, infelizmente não foi a última.

Quantos inocentes ainda precisam morrer para que tomem vergonha na cara quem têm poder para fazer as mudanças necessárias e que se façam, para que realmente levem a sério os problemas estruturais pelos quais passam nossa sociedade, dentre os quais figura entre os primeiros a violência policial, para que nós também ponhamos a mão na massa?

Compartilho a revolta que se abate neste momento sobre a nossa sociedade em cacos, falida, maquilada por números e dados que mal escondem o cotidiano de tragédias diárias por miséria, doenças, fome e assassinatos. Mas sentir revolta e não transformá-la em algo de útil é apenas balela.

Entregues a loucos, não temos nem ao menos o poder de nos organizarmos - também nem queremos ter, desde que haja alguém que nos diga o que fazer e nos governe. Somos dependentes e viciados num sistema corrupto e corruptível. Somos passivos, bobos, alegres e ainda cantamos: "tô nem aí". Somos ridículos.

Thiago Mattos.

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quarta-feira, abril 30, 2008

Innocent Project

27 anos após ter sido preso acusado de violentar e estrangular sua noiva, James Lee Woodward finalmente foi inocentado graças às provas obtidas através de exames de DNA, e graças também a Innocent Project – organização sediada em Nova York e especializada nesse tipo de caso.

O cidadão texano de 55 anos havia esgotado todas as possibilidades de recorrer. Em 1981, a Corte de Dallas o condenou baseado nas declarações de duas testemunhas. Agora, 27 anos depois, duas provas distintas de DNA puderam enfim provar a inocência que ele clamava desde o primeiro dia.

Woodward é a típica vítima dos erros judiciais (e não somente) nos EUA: é negro. Essa não foi a primeira vez que este tipo de situação ocorreu. É a 18ª somente em Dallas. E o que chama mesmo a atenção desta vez é o longo tempo de espera – 27 anos – o maior tempo em que um prisoneiro erroneamente condenado já passou. Um tempo irrecuperável.

Em outro caso semelhante, Thomas McGowan foi recentemente libertado também com base em exames de DNA, após passar 23 anos na prisão.

Que o sistema prisional do Texas (especialmente) está com problemas sérios, isto é fato. Em todo o estado, mais de 30 pessoas condenadas com o mesmo perfil já foram absolvidas com base no mesmo tipo de provas.

O advento do DNA como prova tem ajudado enormemente na resolução de casos judiciais complicados, mas não podemos fechar os olhos para a questão racial presente em cada uma delas. Errar tantas vezes da mesma forma não pode ser uma infeliz coincidência. E não é.

A notícia do erro judicial vem do Texas, mas todos sabemos que poderia muito bem ter vindo do Brasil. Principalmente por não termos ainda nenhum Innocent Project. Por enquanto, nosso único projeto tem sido matar ou prender.

Thiago Mattos.

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segunda-feira, abril 28, 2008

Fala, meu povo! (matando a cobra e mostrando o pau)

Declarações inusitadas ouvidas acidentalmente de manhã, de um programa de TV:



"Nunca aconteceu isso nesse bairro aqui..."
(De uma paulista entusiasmada e sorridente pela oportunidade de dar uma entrevista)

"A atração do fim de semana foi essa"
(De um outro que foi com toda a família visitar o local do crime)

"Eles estão montando palanque como se fosse carnaval"
(De uma moradora, revoltada com a muvuca em seu bairro)

"Eu sou de Ponte Nova, MG. Andei 850 Km pra mostrar a indignação do país nesse caso tão monstruoso... Sai de casa sexta-feira e estou aqui sem dormir até agora [Domingo], me alimentando muito mal e ficando na cruz numa faixa de 10, 11 horas por dia"
(De um penitente mineiro que usava uma máscara e carregava nas costas uma cruz com fotos da família Nardoni, pedindo justiça)

"Minha imagem vai ser mais aqui embaixo... Na portaria... Na queda da Isabella..."
(De um cinegrafista contando o que filmará na reconstituição do crime. No caso, referia-se à boneca de R$18 mil que seria jogada pela Perícia, simulando o assassinato)

"Diz que tem um apartamento que cobrou 15 mil. A escolinha parece que cobrou 10 mil, coisa assim"
(De um morador especulando sobre o aluguel cobrado pela vizinhança à imprensa para lugares estratégicos)

"Se eu soubesse eu podia ter alugado, porque do meu apartamento eu enxergo direitinho o quarto"
(De um morador sorridente, mas frustrado pela ignorância e triste pela oportunidade perdida)

"As emissoras de TV começaram a me procurar querendo emprestrar [sic] minha sacada. Eu falei 'não', que seria um absurdo, que isso ia me trazer problemas, e elas resolveram me fazer um proposta: 'vamos alugar então, a gente paga e você nos cede o espaço'..."
(Da proprietária de uma salão de beleza próximo à Delegacia onde se concentram as investigações do caso, que mudou rapidinho de idéia, declarando ganhar em torno de R$ 1.500 como aluguel)

"4 na sacada e 3 na laje"
(Da mesma pessoa anterior, respondendo a quantas emissoras havia recebido no estabelecimento)

"Nós pegamos uma amizade e quando vocês forem embora, a gente vai sentir saudades"
(Da mesma proprietária, que certamente sentirá falta do dinheirinho extra)

"Domingo é um dia tão vazio, né? Geralmente a gente não tem nada mesmo pra fazer..."
(De um entediado cidadão respondendo por que foi assistir à reconstituição do crime)

Enfim, cada povo com o que merece, certo?

Thiago Mattos.

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sexta-feira, abril 18, 2008

"Nada do que é humano me é estranho"

Somos todos espectadores vorazes e assistimos condicionados e famintos por mais notícias. Esqueçam o trânsito, a dengue, as bolsas de valores e o Tibet! O circo está armado e estamos ligados no Caso da Menina Isabela.

Assistimos seu corpo sendo devorado pelas emissoras de televisão que montaram seus palcos e buscam exclusividade até no último peido que a Menina soltou. Não estranhem se em pouco tempo forem lançadas bonecas Menina Isabela ou coisas do tipo (“nada do que é humano me é estranho”, lembram?).

O que está acontecendo é terrível e, por ser encarado como normal, quase ninguém estranha. Não, não estou aqui para dizer minha teoria mirabolante-indefectível, nem apontar os culpados, pois isso é o que mais fazem por aí. Estou aqui para discutir a influência da atitude canibal dos nossos meios de comunicação frente à tragédia do mês (ou será que já esqueceram a do mês passado?).

É claro que nos choca que uma menina de 6 anos incompletos tenha sido assassinada, principalmente do modo como foi. Mas a superexposição, as tantas especulações, a proposital falta de assunto – que torna banal qualquer outra notícia – os furos de reportagem, as entrevistas exclusivas, enfim, o espetáculo que se armou em torno disso tem sido uma barbaridade à altura da outra. E no meio de tantos malucos não há qualquer sanidade.

Estamos expostos a um jornalismo doente, que contagia seus consumidores e os insere numa roda vida de terror, tragédia, violência e medo sem saída. O clima de linchamento nacional, a incitação subjetiva à justiça com as próprias mãos, a repetição das imagens over and over again são artifícios para vender e ganhar ibope que deixa doente a quem assiste a tudo na condição de espectador.

Como homem, e diante de tal fato, reconheço: muito do que é humano é bem estranho sim e, como seres humanos, devemos estranhar nossa própria condição animalesca que tem sido aguçada, que se delicia e quer porque quer ver mais sangue.

Dica: não se deixem contaminar. Troquem logo de canal.

Thiago Mattos.

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sábado, outubro 27, 2007

Mentes doentias, idéias perigosas

As recentes declarações do governador Sérgio Cabral Filho acerca da legalização do aborto como forma de conter a violência revelam o retrato das mentes que nos governam e das que querem nos governar, refletindo um raciocínio simplista e preconceituoso, que facilmente conquista simpatizantes.

Segundo esta lógica, pobre tem filho demais, o que gera ainda mais pobreza, que, por sua vez, gera violência. Desta forma, a legalização do aborto diminuiria o número de filhos indesejados, que teriam maior chance de se envolverem no crime, o que por sua vez, diminuiria a violência.

O fio condutor deste pensamento tem origem no livro Freakonomics, de Steven Levitt e Stephen J. Dubner, onde é divulgada a idéia de que a redução da violência nos Estados Unidos, no final do século passado, pode ser atribuída na sua maior parte à legalização do aborto.

Pura falácia – o estudo não leva em conta outros fatores, como a presença do crack na época, além de se basear em números absolutos de detenções, e não em médias per capita.

Seria muito mais conveniente à nossa realidade tomar como base dados do IBGE, que mostram a relação entre a alta fecundidade e a baixa educação e a renda; assim poderíamos adotar políticas públicas de informação e formação a quem precisa. Mas não, além do impulso ao plágio de modelos estrangeiros sem atentar para nossas especificidades, é mais fácil querer castrar todo mundo (como sugeriu um ser humano que não faria falta a ninguém), ligar as trompas de todas as “fábricas de produzir marginal” (frase do nosso governador), ou partir mesmo para o aborto das mulheres pobres.

A questão aqui em jogo não é a legalização do aborto – que deve ser discutida sim – mas a clara referência à eugenia. As mulheres pobres estão sendo pegas como bodes expiatórios de um problema social que envolve muito mais que uma simplificação preconceituosa de que o aborto diminui a criminalidade – até porque não podemos aceitar o pressuposto de que o crime vem apenas dos pobres.

Se fosse assim já teríamos a solução para os problemas da corrupção no Brasil: mães ou esposas de corruptos deveriam abortar ou serem esterelizadas a fim de conter o mal, principalmente na região do Maranhão, onde a média de filhos atinge 3,2 por mulher.

É preciso enxergar o perigo neste discurso que não tem nada de ingênuo, que é o da limpeza social. É preciso entender as raízes do problema ao invés de simplificá-lo, para que assim as mulheres possam ter o direito da escolha e do planejamento responsável.

Thiago Mattos.

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segunda-feira, outubro 08, 2007

Extrabrasileiros

O artigo publicado recentemente pelo apresentador de TV Luciano Huck na Folha de S. Paulo é desmoralizante, indigno e repugnante. Contudo, temos uma oportunidade ímpar de entender a cabeça de nossa elite financeira, que cisma em não olhar para onde vivemos – esse país estranho chamado Brasil.

O apresentador reclama por conta de um relógio que lhe fora roubado por “dois pobres coitados”, se diz revoltado e pede para chamar o Capitão Nascimento (o anti-herói do filme Tropa de Elite que executa sumariamente outros “pobres coitados” nas favelas).

Huck diz estar à procura de um salvador da pátria, alguém que lhe garanta proteção, cuide de sua propriedade e lhe tranqüilize ao andar com seu Rolex de sabe-se lá quantos zeros no país do faz de contas (já que paga uma fortuna de impostos).

Ao longo do seu texto, chamou-me a atenção em especial um termo usado por ele nesta frase: “Alguém consegue explicar um assassino condenado que passa final de semana em casa!? Qual é a lógica disso? Ou um par de ‘extraterrestres’ fortemente armado desfilando pelos bairros nobres de São Paulo?

A palavra ‘extraterrestres’ é pontual e explica muito a lógica deste sistema, onde os pobres (coitados ou não) são domesticados com a ajuda de estúpidos programas de TV, de modo a tornarem-se apáticos em relação à injusta distribuição da riqueza social no país, percebendo-a ainda como a ordem natural das coisas – como se fossem excluídos por acaso, e ninguém tivesse nada a ver com isso.

Extraterrestres. É exatamente assim como são vistos os “pobres coitados” que roubam, vendem mercadorias ilegais, CDs piratas, drogas e matam por nada. E, como se não fossem deste planeta, como se não pertencessem a este país, vagam pelas ruas em busca da sobrevivência, da existência social, por assim dizer.

São ignorados em todos os sentidos do termo e, a não ser quando percorrem as páginas policiais, praticamente não existem. Quando a realidade nos forca a vê-los, a encará-los, não os reconhecemos como compatriotas. Tudo é diferente: seu jeito de falar, de andar, de se comportar, de dançar e também seu jeito de roubar.

Não queremos vê-los ou entendê-los, queremos nos ver livres deles. São para nós equivalentes aos imigrantes ilegais dos EUA, com uma pequena diferença de sermos do mesmo país. Vá lá, são extrabrasileiros.

No fim de tudo, o cidadão que se diz humilhado ao ter um 38 na testa e quase morrer por causa de um relógio compartilha sua dor com outros tantos que são lembrados a toda hora que a realidade existe. Porém, não adianta tentar maquiá-la com projetos sociais ou tentar modificá-la com a pena de morte promovida pelo tal Capitão Nascimento. Essa não é a solução.

Nada funcionará se não mudarmos nossa maneira de enxergar a lama em que estamos e como nós mesmos a fazemos e a deixamos fazer. Nada mudará se não percebermos nossa maneira peculiar de enxergá-la, nosso distanciamento e nossos preconceitos. Nossa cegueira cega que não quer ver que não está vendo.

Vejam por si só, acreditem em mim: extrabrasileiros existem.

Thiago Mattos.

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sábado, setembro 22, 2007

A turma do Capitão Gancho

Começou o mais aguardado festival de cinema da cidade. De 20 de setembro a 4 de outubro, o Festival do Rio 2007 traz centenas de filmes de várias partes do mundo, para todos os gostos. Mas além de filmes, o festival deste ano traz ao público a discussão do momento: a pirataria.

Para a abertura do festival, foi exibido o polêmico Tropa de Elite, que aborda a problemática situação em que se encontra a Polícia Militar carioca, em especial a divisão do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais), cujo grito de guerra “entrar na favela e deixar corpo no chão” não deixa dúvidas da eficácia da corporação quando o assunto é matar.

Inspirado no livro Elite da Tropa (de Luís Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel), o filme já era notícia antes mesmo de sua estréia no festival, quando vazou na Internet e começou a ser vendido pelos camelôs da cidade. Foi aí então que o diretor José Padilha – o mesmo de Ônibus 174 – começou a chamar atenção com suas declarações condenando a “indústria da pirataria”, que, ironicamente, muito o ajudou com todo esse sucesso.

Como ressalta o Blog do Zé Pereira, José Padilha deveria brigar para que todo cidadão pudesse ter acesso ao seu filme, uma vez que este foi beneficiado pela política cultural de incentivo fiscal, ao invés de sair por aí querendo mais repressão a quem vende as cópias.

Se há uma demanda por um preço mais acessível a quem não pode consumir cultura (ir ao cinema, teatro, etc.) e por isso compra o “CD pirata”, da mesma maneira há uma demanda a quem precisa trabalhar vendendo os “maléficos” CDs, pois não há muitas opções de trabalho. Criminalizar a venda ou culpabilizar a compra, por si só, não encerra a questão.

Ignorar isso é ignorar a sociedade brasileira: o mercado informal existe, seja ele legal ou ilegal. E, se do ponto de vista jurídico não acham certo que outras pessoas “se apropriem” da obra de um artista para ganhar dinheiro, do ponto de vista social não é certo que apenas uma parcela da população se aproprie da cultura produzida com o dinheiro de todos.

De qualquer forma, o filme providencialmente cumpre o seu papel de atacar a pirataria e culpar quem consome a chamada ilegalidade, simplificando assim ainda mais a problemática das drogas e da corrupção, disfarçado sob o mesmo apelo social de filmes como Cidade de Deus.

Foi dado início à temporada de caça aos piratas e fica em aberto a discussão sobre a produção de cultura feita com o dinheiro público mas destinada a um seleto público: aqueles que podem se dar ao luxo de ter esta discussão da mesma forma que podem comprar a pipoca e o ingresso do cinema.

Thiago Mattos.

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quarta-feira, maio 17, 2006

Quem são nossos presos?

São Paulo, o maior centro financeiro do país, finalmente se recupera depois de quatro dias refém do Primeiro Comando da Capital (PCC), uma facção criminosa que comandou uma onda de rebeliões dentro de 78 prisões. Os criminosos também promoviam do lado de fora das cadeias ataques a policiais por todo o estado, assim como o incêndio de ônibus, fóruns, agências bancárias e a morte de quase 70 pessoas.

Nesta segunda-feira (15/05), houve o maior congestionamento do ano na cidade e talvez tenha até registrado um recorde histórico: 195 Km às 17h30, deixando mais de 5 milhões de pessoas sem transporte, já que as empresas de ônibus não liberaram um terço da frota, temendo mais ônibus queimados. A onda de pânico que tomou conta da cidade pode até ter sido maximizado pela ampla cobertura jornalística da TV, como declarou o governo do Estado, mas de certo nos trouxe mais uma vez para o centro da discussão de um dos maiores problemas sociais que o Brasil enfrenta: a falta de uma eficaz política de segurança pública para lidar com a violência urbana.

A péssima condição do sistema carcerário brasileiro aliado à falta de uma integração entre as polícias federal, civil e militar, mais uma vez nos lembra que devemos tratar com seriedade este problema que faz vítimas impiedosamente. A ausência de organização federal contra o crime organizado e a fácil corrupção dos policiais, mal treinados e mal pagos, só pioram o problema.

Diferentemente do que ocorre no Rio de Janeiro, os criminosos de São Paulo estão muito mais organizados e centralizados. Os ataques coordenados, facilitados pelo uso de telefones celulares dentro das prisões, chamam a atenção pela maneira como operam. Detentos de outros estados também se rebelaram, obedecendo ordens vindas de São Paulo.

O dinheiro sujo gerado pelo tráfico de drogas e armas está criando redes que torna difícil diferenciar qual parcela vem de onde. Há também quadrilhas que se organizam pelo contrabando, pelo controle do recolhimento do lixo público ou dos transportes. Pouco a pouco, tudo se mistura. Logo, o dinheiro ilegal usado num financiamento de campanha eleitoral pode também ser o dinheiro manipulado pelos mesmos criminosos.

Pesquisadores e estudiosos apontam para a continuação dos ataques, seja dentro dos presídios ou nas ruas. O sociólogo francês Loïc Wacquant, professor de Berkeley e especialista no assunto, chama a atenção para o fato de que nas últimas décadas as elites políticas brasileiras têm usado o estado penal – a polícia, os tribunais e o sistema judiciário – como o único instrumento não só de controle da criminalidade como de distribuição de renda e de fim da pobreza urbana. O sistema penitenciário funciona como um “campo de concentração” para os muito pobres, segundo ele.

Por tudo isso, as causas do crime devem ser atacadas na raiz, não mais apenas remediadas. O próprio Estado propaga o preconceito de classe e de raça através da maneira como trata o assunto. Precisamos providencialmente enxergar que a falha está na desigualdade social mantida institucionalmente no Brasil. Episódios como o massacre do Carandiru ou o assalto do ônibus 174 nos lembram que enquanto ignorarmos a raiz do problema, a morte de inocentes será tratada como um acontecimento banal.

Thiago Mattos.

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