domingo, junho 13, 2010

Índice da Paz Global (Global Peace Index)

O Índice da Paz Global (Global Peace Index), um ranking com os países mais pacíficos do planeta, foi divulgado na última semana.

Dentre os indicadores, o número de homicídios, a população carcerária e gastos militares, entre outros, foram considerados na medição.

E, de forma indireta, a pesquisa também leva em conta índices de corrupção, taxa de alfabetização e desemprego, entre muitos outros.

O Brasil ocupa a 83a. posição (uma acima dos Estados Unidos), perdido entre os 149 países medidos. Segundo a lista, os 10 países mais pacíficos do mundo são:

1New Zealand Nova Zelândia

2Iceland Islândia

3Japan Japão

4Austria Áustria

5Norway Noruega

6Ireland Irlanda

7Denmark Dinamarca

7Luxembourg Luxemburgo

9Finland Finlândia

10Sweden Suécia

O site também mostra um breve evolução das posições no tempo. Vale a pena conferir.

Thiago Mattos

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sexta-feira, dezembro 11, 2009

Brasília para quem precisa

Foto: Dida Sampaio

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domingo, novembro 08, 2009

Vergonha da minha geração acéfala



Há pouco a dizer sobre o ridículo episódio da estudante de turismo da UNIBAN, em São Paulo. Como todos sabem, há algumas semanas Geyse Arruda foi escurraçada, xingada e, finalmente, expulsa da universidade onde estudava.

É lamentável, meus amigos, mas de experiência própria posso garantir que a atitude daqueles "universitários" não é assim tão chocante: essa é a nossa juventude, esse é o infeliz retrato do Brasil.

Após me formar em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, decidi voltar a cursar jornalismo em São Paulo e sei que isso poderia muito bem ter acontecido onde estudo hoje - tenho certeza. Aliás, foram alguns "colegas" de lá que me garantiram que teriam feito o mesmo.

Isso posto, resta pouco a dizer. Reproduzo aqui uma nota da União Nacional dos Estudantes que diz tudo o que penso:

Episódio de violência sexista acaba em mais uma demonstração de machismo

No dia 22 de outubro, o Brasil assistiu cenas de selvageria. Uma estudante de turismo da Universidade Bandeirante (São Paulo) foi vítima de um dos crimes mais combatidos na sociedade, a violência sexista, que é aquela cometida contra as mulheres pelo fato de serem tratadas como objetos, sob uma relação de poder desigual na qual estão subordinadas aos homens. Nesse episódio, a estudante foi perseguida e agredida pelos colegas, hipoteticamente pelo tamanho de vestido que usava, e só pôde deixar o campus escoltada pela polícia. Alguns dos alunos que a insultaram gritavam que queriam estuprá-la. Desde quando há justificativa para o estupro ou toleramos esse tipo de violência?

Pasmem, essa história absurda teve um desfecho ainda mais esdrúxulo. A Universidade, espaço de diálogo onde deveriam ser construídas relações sociais livres de opressões e preconceitos, termina por reproduzir lamentavelmente as contradições da sociedade, dando sinais de que vive na era das cavernas.

Além de não punir os estudantes envolvidos na violência sexista, responsabiliza a aluna pelo crime cometido contra ela e a expulsa da universidade de forma arbitrária, como se dissessem que, para manter a ordem, as mulheres devem continuar no lugar que estão, secundárias à história e marginalizadas do espaço do conhecimento.

É naturalizado, fruto de uma construção cultural, e não biológica, que os homens não podem controlar seus instintos sexuais e as mulheres devem se resguardar em roupas que não ponham seus corpos à mostra. Os homens podem até andar sem camisa, mas as mulheres devem seguir regras de conduta e comportamento ideais, a partir de um padrão estético que a condiciona a viver sob as rédeas da sociedade, que por sua vez é controlada pelos homens.

Esse desfecho, somado às diversas abordagens destorcidas do fato na mídia, demonstram a situação de opressão que todas nós, mulheres, vivemos em nosso cotidiano. Situação em que mulheres e tudo o que está relacionado a elas são desvalorizados e depreciados. A mulher é vista como uma mercadoria - ora utilizada para vender algum produto, ora tolhida de autonomia e direitos, ora violentada, estigmatizada e depreciada. É essa concepção que acaba por produzir e reproduzir o machismo, violência e sexismo, próprios do patriarcado. Tal concepção permitiu o desrespeito a estudante.

Nós, mulheres estudantes brasileiras, em contraposição a essa situação, estamos constantemente em luta até que todas as mulheres sejam livres do machismo, da violência, do desrespeito e da opressão que nos cerca.

Repudiamos o ato de violência dos alunos contra a estudante de turismo, repudiamos a reação da mídia que insiste em mistificar o fato e não colocar a violência de cunho sexista no centro do debate e denunciamos a atitude da universidade de punir a estudante ao invés daqueles que provocaram tal situação.

Exigimos que a matrícula da estudante seja mantida, que a Universidade se retrate publicamente e que todos os agressores sejam julgados e condenados não somente pela instituição, a Uniban, mas também pela Justiça brasileira.

Somos Mulheres e Não Mercadoria!

Diretoria de Mulheres da UNE - União Nacional dos Estudantes


É nessas horas que tenho vergonha da minha geração acéfala.

Thiago Mattos.

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quinta-feira, outubro 22, 2009

"Plano de segurança"

Poucas palavras dizem tudo. A charge acima veio do blog Koostela e exprime com precisão o sentimento atual com relação às Olimpíadas e a violência brasileira, especialmente no Rio.

Quando chegamos ao ponto de não saber mais quem é o grande vilão dessa história, contra quem realmente estamos lutando, quando não se vê mais diferença entre polícia e bandido e tudo parece estar perdido, como entender esse momento?

Thiago Mattos.

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quarta-feira, outubro 07, 2009

Worldmapper: uma nova forma de ver o mundo

Um projeto desenvolvido por geógrafos da Universidade de Sheffield, na Grã-Bretanha, mostra uma nova forma de ver os mapas do mundo.

Através do Worldmapper é possível ver como seriam os países se seus mapas levassem em conta indicadores como densidade demográfica, renda, usuários de internet, mortalidade infantil, entre outros.

Para se ter uma ideia, se o mapa do Brasil fosse visto a partir da concentração populacional, ficaria claro no desenho nossa imensa desigualdade não somente entre os estados, mas também entre as regiões.

Dá para aprender bastante com as mais diversas categorias lá no site, que também é muito bom para pesquisas. Fica a dica.

Thiago Mattos.

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quarta-feira, julho 30, 2008

Tá tudo dominado!

O número é bem sugestivo. De acordo com um relatório confidencial da Subsecretaria de Inteligência (SSI) da Secretaria de Segurança do Rio, as milícias - quadrilhas chefiadas por policiais que dominam comunidades pobres, cobrando por "segurança", atualmente intimidando eleitores e candidatos - já estão em 171 localidades de dez cidades fluminenses, incluindo a capital. 171!

De acordo com O Estado de S. Paulo, o documento, enviado à CPI das Milícias da Assembléia, identifica 521 pessoas supostamente envolvidas, entre elas deputados, vereadores, policiais civis (18) e militares (156), integrantes do Corpo de Bombeiros (11), agentes penitenciários (3) e membros das Forças Armadas (3). Os demais são todos civis, entre os quais alguns ex-policiais.


A presença das milícias espalha-se por Magé, Duque de Caxias, São João de Meriti, Belfort Roxo e Mesquita (Baixada Fluminense); Niterói e São Gonçalo (Região Metropolitana); Cabo Frio e Macaé (Região dos Lagos); e principalmente na capital (125 comunidades) - zonal norte e zona oeste.

Na zona oeste, estão em 94 bairros ou localidades (68,12%). Nessa região está a favela de Rio das Pedras - um dos primeiros locais a surgir milícias - e onde atua a chamada Liga da Justiça, grupo supostamente chefiado pelo deputado estadual Natalino José Guimarães (DEM) e seu irmão, o vereador Jerônimo Guimarães Filho (PMDB), o Jerominho.


Na zona norte, a milícia ocupou 31 locais (22,46%), e, curiosamente, um dos locais de maior expressão fica na região de Rocha Miranda, perto do 9º Batalhão da Polícia Militar.

É de se notar que uma parcela considerável de moradores apóiam as milícias. Eles realmente acreditam que suas favelas são melhores pois "não tem tráfico ou roubos" e "ninguém pisa na bola". Essas pessoas pagam a um Estado Paralelo por um serviço que depois de acordado não se pode mais reclamar. Cria-se um circulo vicioso e assim as milícias se espalham, usando o mesmo mecanismo que o tráfico, corrompendo e vendendo algo que não lhes pertence.

A lógica por trás das milícias merece ser discutida e entendida, não glamourizada na novela das oito. Alguém lembra de Juvenal Antena e da Portelinha? Pois é, aquilo não era a realidade! Favela customizada no Projac com os pobrezinhos bem vestidos, belos e malhados não dá para engolir.

Não adianta romantizar a pobreza ou enfeitar a violência. O problema é muito mais sério e o buraco é bem mais embaixo!


Thiago Mattos.

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sexta-feira, abril 18, 2008

"Nada do que é humano me é estranho"

Somos todos espectadores vorazes e assistimos condicionados e famintos por mais notícias. Esqueçam o trânsito, a dengue, as bolsas de valores e o Tibet! O circo está armado e estamos ligados no Caso da Menina Isabela.

Assistimos seu corpo sendo devorado pelas emissoras de televisão que montaram seus palcos e buscam exclusividade até no último peido que a Menina soltou. Não estranhem se em pouco tempo forem lançadas bonecas Menina Isabela ou coisas do tipo (“nada do que é humano me é estranho”, lembram?).

O que está acontecendo é terrível e, por ser encarado como normal, quase ninguém estranha. Não, não estou aqui para dizer minha teoria mirabolante-indefectível, nem apontar os culpados, pois isso é o que mais fazem por aí. Estou aqui para discutir a influência da atitude canibal dos nossos meios de comunicação frente à tragédia do mês (ou será que já esqueceram a do mês passado?).

É claro que nos choca que uma menina de 6 anos incompletos tenha sido assassinada, principalmente do modo como foi. Mas a superexposição, as tantas especulações, a proposital falta de assunto – que torna banal qualquer outra notícia – os furos de reportagem, as entrevistas exclusivas, enfim, o espetáculo que se armou em torno disso tem sido uma barbaridade à altura da outra. E no meio de tantos malucos não há qualquer sanidade.

Estamos expostos a um jornalismo doente, que contagia seus consumidores e os insere numa roda vida de terror, tragédia, violência e medo sem saída. O clima de linchamento nacional, a incitação subjetiva à justiça com as próprias mãos, a repetição das imagens over and over again são artifícios para vender e ganhar ibope que deixa doente a quem assiste a tudo na condição de espectador.

Como homem, e diante de tal fato, reconheço: muito do que é humano é bem estranho sim e, como seres humanos, devemos estranhar nossa própria condição animalesca que tem sido aguçada, que se delicia e quer porque quer ver mais sangue.

Dica: não se deixem contaminar. Troquem logo de canal.

Thiago Mattos.

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sábado, outubro 27, 2007

Mentes doentias, idéias perigosas

As recentes declarações do governador Sérgio Cabral Filho acerca da legalização do aborto como forma de conter a violência revelam o retrato das mentes que nos governam e das que querem nos governar, refletindo um raciocínio simplista e preconceituoso, que facilmente conquista simpatizantes.

Segundo esta lógica, pobre tem filho demais, o que gera ainda mais pobreza, que, por sua vez, gera violência. Desta forma, a legalização do aborto diminuiria o número de filhos indesejados, que teriam maior chance de se envolverem no crime, o que por sua vez, diminuiria a violência.

O fio condutor deste pensamento tem origem no livro Freakonomics, de Steven Levitt e Stephen J. Dubner, onde é divulgada a idéia de que a redução da violência nos Estados Unidos, no final do século passado, pode ser atribuída na sua maior parte à legalização do aborto.

Pura falácia – o estudo não leva em conta outros fatores, como a presença do crack na época, além de se basear em números absolutos de detenções, e não em médias per capita.

Seria muito mais conveniente à nossa realidade tomar como base dados do IBGE, que mostram a relação entre a alta fecundidade e a baixa educação e a renda; assim poderíamos adotar políticas públicas de informação e formação a quem precisa. Mas não, além do impulso ao plágio de modelos estrangeiros sem atentar para nossas especificidades, é mais fácil querer castrar todo mundo (como sugeriu um ser humano que não faria falta a ninguém), ligar as trompas de todas as “fábricas de produzir marginal” (frase do nosso governador), ou partir mesmo para o aborto das mulheres pobres.

A questão aqui em jogo não é a legalização do aborto – que deve ser discutida sim – mas a clara referência à eugenia. As mulheres pobres estão sendo pegas como bodes expiatórios de um problema social que envolve muito mais que uma simplificação preconceituosa de que o aborto diminui a criminalidade – até porque não podemos aceitar o pressuposto de que o crime vem apenas dos pobres.

Se fosse assim já teríamos a solução para os problemas da corrupção no Brasil: mães ou esposas de corruptos deveriam abortar ou serem esterelizadas a fim de conter o mal, principalmente na região do Maranhão, onde a média de filhos atinge 3,2 por mulher.

É preciso enxergar o perigo neste discurso que não tem nada de ingênuo, que é o da limpeza social. É preciso entender as raízes do problema ao invés de simplificá-lo, para que assim as mulheres possam ter o direito da escolha e do planejamento responsável.

Thiago Mattos.

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quinta-feira, outubro 04, 2007

Liberdade ainda que tarde! (Free Burma)


Free Burma!

A campanha é simples e fácil. Basta você se inscrever aqui, pôr um banner no seu blog e manifestar seu apoio aos monges e civis de Mianmar, que estão sofrendo violentas repressões e desaparições políticas que nos lembram a América Latina de outrora.

Na verdade, nem precisaria se inscrever; nem pôr banner ou ter blog. Bastaria estarmos a par dos acontecimentos da ex-Birmânia e compartilharmos informações a respeito - tão difícil num lugar onde só há uma versão dos fatos: a oficial. Já sabemos dos perigos da demora quando um regime está matando pessoas e ninguém toma posição.

Não custa lembrar que o mesmo vale para a violência daqui. Está certo que não temos o mesmo charme dos monges, mas também não ficamos para trás nas maldades. A cor do sangue é a mesma.

Por isso, informação, esclarecimento e ação nunca são demais. Liberdade ainda que tarde!

Thiago Mattos.

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segunda-feira, junho 25, 2007

A covardia só muda de sotaque

A notícia de que cinco jovens moradores de condomínios de luxo na Barra da Tijuca espancaram covardemente uma empregada doméstica e roubaram sua bolsa na madrugada de sábado revela um triste lado de nosso país, evidenciado especialmente nas grandes cidades.

Esse comportamento sádico dos agressores estudantes de turismo, administração, gastronomia, informática e direito, que justificam tamanha barbaridade dizendo que confundiram a vítima com uma prostituta – pasmem! – apenas reflete a maneira como nossas elites em geral tratam nossos pobres: com a mais pura e sincera humilhação, com vontade de matar.

Os cinco fortes jovenzinhos da Barra da Tijuca, que demonstraram o estrago que fazem juntos em uma só mulher, em nada diferem dos que atearam fogo a um índio pataxó há 10 anos atrás em Brasília. Ou dos falsos punks que mataram um garçom a facadas também nesse último final de semana em São Paulo. Todos são privilegiados financeiramente em relação à realidade da maioria das famílias brasileiras e nenhum deles têm qualquer noção de ética, bondade ou respeito. A corvadia só muda de sotaque.

Estão sendo formados pelos seus pais para serem esse tipo de gente mesmo, sem qualquer compromisso ou consciência social. Daqui a alguns anos, muitos se tornarão diretores de importantes empresas, respeitáveis advogados, executivos que estarão à frente de funções que lhe garantam suficiente poder para dar continuidade ao mesmo projeto de vida que mantém nosso país como é: desigual e injusto, seletivamente cruel e bárbaro, de modo que a política de extermínio aos pobres continue vagarosa e imperceptivelmente.

Assim os poderosos conservam seu poder e assim tem sido há 500 anos. Não sabemos quanto tempo os jovens-de-comportamento-desviante ficarão presos, nem tampouco se ficarão. A impunidade é um privilégio para poucos nesse país. E é claro que tudo seria bem diferente se fossem “favelados” agredindo uma empresária. De qualquer forma, tentemos vislumbrar uma esperança nisso tudo.

Temos a sorte de podermos contar cada vez mais com gente disposta a fazer justiça como o taxista que anotou a placa do carro dos jovens agressores, ato heróico de um anônimo. Talvez nem tudo esteja perdido, ainda que o futuro da nação esteja nas mãos dessa juventude doentia e ignorante – reflexo piorado de todas as gerações anteriores.

Thiago Mattos.

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quinta-feira, abril 19, 2007

A cultura da violência (da Virgínia ao Catumbi)

Quarta-feira, meio-dia. Um helicóptero preto da Polícia Civil dá rasantes no morro do Pavão-Pavãozinho, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Os barulhos da hélice me trazem o pensamento para a possibilidade do início de mais um tiroteio no morro. Concentrar-se em escrever um texto é difícil. Espero o dia seguinte.

No cemitério do Catumbi, os velórios haviam sido suspensos. Velar um morto por lá ainda pode matar. Pois mesmo que esse pedaço do Rio de Janeiro não seja Zona Sul, Centro ou Zona Norte, é certo um lugar onde não há muita paz por aqui.

Nosso cotidiano carioca que mistura alegria, suor e tragédia quase não pode mais se espantar com a cor do sangue nem com a razão porque ele jorra dos corpos de nossos mortos.

De manhã, uma manifestação pela paz colocou 1.300 rosas num ponto da praia de Copacabana para nos lembrar quantos já morreram nesta guerra financiada pela indústria da violência tupiniquim. As rosas e o sangue têm a mesma cor, mas isso pouco importa para quem morre.

Pelo Brasil adentro brotam tantos exemplos de tragédias cotidianas que um massacre como o de Virginia Tech não pode mais nos chocar. No máximo, um pequeno susto.

Apesar da diferença em como se mata lá e aqui, chama a atenção no caso da Virgínia a frieza de um assassinato em massa onde os que ficaram não podem dirigir a raiva a alguém, já que o único suspeito está morto. Haveria ainda alguma justiça a ser feita? Como?

Mesmo que surjam vídeos, fotos ou cartas, nunca saberemos a ‘verdade verdadeira’ de uma tragédia que massacra os espectadores do mundo inteiro contra o mais novo inimigo público dos EUA: um coreano, ainda que do sul da Coréia.

Apesar de todo o sangue derramado e da surpresa em relação ao que nos lembra o que outra hora se chamou Columbine – ou tantos outros nomes de escolas nos EUA assoladas pelo mesmo mal – sabemos como poucos sobre assassinatos em massa, sejam eles cometidos por loucos ou não, com ou sem uniforme, legitimados ou não pelo aparelho repressivo do Estado.

Não precisamos de um assassino no cinema, nem de uma menina que mata os pais e tem nome alemão. Pouco precisamos de psicopatas. Nossas instituições cuidam para que essa indústria da violência siga matando em endereço certo aos nossos próprios inimigos públicos: nossos pobres.

A tragédia de mortes banalizadas que choca o mundo e é para nós uma dura realidade ainda custará muitas rosas.

Thiago Mattos.

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domingo, fevereiro 11, 2007

Olho por olho, dente por dente

O que dizer da mais nova polêmica promovida pela grande mídia corporativista: a pena de morte. Que os bandidos responsáveis pela morte de uma criança inocente também devem ser mortos a fim de que tudo se resolva em paz? Que os facínoras não são mais humanos e, portanto, perderam seus direitos? E, por conseguinte, devem ser torturados e arrastados no mesmo trajeto para sentirem a mesma dor e pagarem o que fizeram?

Não há dúvida de que ninguém aceita a impunidade. Todos nós, chamados cidadãos de bem, queremos justiça, de um modo ou de outro. Mas até que ponto essa justiça com as próprias mãos resolve o problema? Seria mesmo esse o melhor exemplo a ser dado? Olho por olho e dente por dente, seria essa a justiça ideal?

Há muitas perguntas e sugestões do que deve ser feito. No entanto, para qualquer dessas possibilidades, pouco se entende do que se fala e, no sentido oposto, pouco se faz. É óbvio que uma pena de morte não institucionalizada já existe e é praticada no Brasil. Destina-se a um público alvo. Quem disse que nossa polícia não é boa? Quando o assunto é matar, ela é exemplar.

Mesmo que houvesse uma redução da maioridade penal e a imediata instalação da pena de morte (que sou veementemente contra, diga-se de passagem), me parece que de nada adiantaria se não fossem melhoradas as condições das prisões, da polícia, do Judiciário e de todo um tecido social que está carcomido por dentro.

Estamos todos desesperados por soluções imediatas, carentes de uma esperança de que tudo possa melhorar. A morte de um inocente em quaisquer circunstâncias gera comoção e revolta. Mas qualquer solução encontrada num momento como este, onde todos querem sentir o gosto de mais sangue derramado, não parece ser de bom-senso. Precisamos parar um pouco de reclamar e ir à reunião de condomínio. Isso para começar.

Thiago Mattos.

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quarta-feira, janeiro 24, 2007

"Chame o ladrão"

A piada com as fotos dos policiais cariocas tiradas com turistas estrangeiras em poses de simulação de prisão e violência não teve a menor graça – a não ser para os turistas que riram de nós. A quase inexistente credibilidade que gozava a instituição da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PM-RJ) já devia ter atingido a escala negativa há muito tempo. Mas tudo de ruim que o histórico policial guarda, de um modo ou de outro, sempre tenta se superar.

Não bastasse tudo o que certos policiais militares daqui vem aprontando – participação em chacinas, corrupção ativa e passiva, envolvimento com o tráfico, conivência com jogos ilegais, entre muitíssimos outros maus exemplos de como não se deve agir – agora vem mais essa. Fotos lamentáveis de policiais que não valem o colete que usam nem as balas que carregam.

Certamente, não podemos julgar todos os membros da instituição como corruptos, assassinos e facínoras. Obviamente, sabemos das suas dificuldades no trabalho, da pouca remuneração, disso tudo e muito mais. Mas o fato é que nenhum dos argumentos justifica o comportamento desse tipo de agente que deveria proteger a população e não amedontrá-la. Além disso, já está mais que claro que a instituição – ainda que se conte as raras exceções dos bons policiais – está falida como um todo.

Alguém ainda acha estranho quando vê um carro da PM do Rio passando com os quatro vidros abertos onde canos de fuzis e metralhadoras estão expostos por todos os lados, ou já acham que isso é mesmo normal? Onde já se viu tanta truculência, tanto medo de polícia, de estar perto de um, de sempre se perguntar: “será que esse cara é mesmo um deles ou só está com o uniforme?”.

Tenho vergonha da polícia que há no meu estado, entre outras coisas. Vergonha, revolta, medo, raiva, tenho muitos sentimentos sobre os absurdos que envolvem a PM-RJ e sobre os absurdos com os quais ela se envolve. É uma pena que os poucos bons policiais de lá não sejam capaz de difundir seu exemplo.

Thiago Mattos.

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segunda-feira, janeiro 01, 2007

Sobre o enforcamento (ou "A violência é tão fascinante")

Saddam Hussein, tirano sanguinário foi enforcado.
Corda no pescoço, Alcorão na mão, Maomé na boca.
Sua morte foi cruel, pra ele não se podia dar sopa.
Tinha que pagar com a própria vida as que havia tirado.
Dar seu sangue para compensar o sangue derramado
Servir de exemplo pra mostrar o que acontece
A quem se mete com quem não deve
Com tiranos ainda mais sanguinários,
Na qual as diferenças que mais se fazem notar são
O nome dos santos livros: um a Bíblia, outro o Alcorão.
A amizade com os organismos internacionais
A influência política que nunca é demais.
Déspota por déspota quem é que pode me dizer:
Qual deles merece matar, qual deles merece morrer?
Qual deles merece julgar e dizer tu és meu condenado?
Quem de nós pode dizer: bem feito ter sido assassinado?
Parece que eles decidem e concordamos resignados
Vivemos sem nem sentir, é tão difícil acreditar
Qualquer vida que é tirada não pode mais nos tocar.

Thiago Mattos.

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sábado, dezembro 30, 2006

Feliz tudo de novo!

Por mais que se tentasse impedir, e antes que pudéssemos perceber, o ano de 2006 já era. Foi embora levando sonhos, ilusões e, para muitos até, esperança. Ficará conhecido, entre outras coisas, como o ano que enforcou Saddam Hussein, reelegeu Lula e fechou com chave de ouro, com uma súbita onda de violência na cidade do Rio de Janeiro.

2006 já era, mas deixa perguntas. Será que a execução de Saddam Hussein – espetáculo sádico de um mundo que deseja acabar com a violência e fazer justiça dando exemplos hipócritas e sanguinários – desviará a atenção das mortes diárias no Iraque, ou apenas as aumentará? Quanto tempo ainda levará antes que os senhores da guerra decidam deixar o país à própria sorte dos iraquianos? Com quantas guerras se faz uma paz?

Depois de tantos escândalos políticos, do povo desenganado com seus governantes, de mais do mesmo, será que a reeleição de Lula mudará algo substancial no destino do país ou sua maneira curiosa de governar – que vem misturando coalizão e colisão – não aprenderá com os erros do passado? O que vem pela frente: mais sujeira ou uma melhora nas consciências? Com quantos escândalos se faz um político?

A cidade do Rio de Janeiro, a menos de uma semana para terminar o ano, sofreu com inúmeros ataques de violência onde ônibus foram queimados e pessoas foram mortas. Mas, a vida na cidade continuou normalmente, como se nada tivesse acontecido. Por mais que a violência chocasse, no fundo, para quem era apenas expectador, pouco se espantou. Tudo seguiu como se a violência fizesse parte do nosso cotidiano – e o pior é que realmente faz. Com quantas mortes se tomam providências?

Fica mais uma pergunta: se foram as tais milícias – como tanto se tem dito – que expulsaram traficantes dos morros cariocas, e se elas são formadas por policiais, agentes penitenciários, bombeiros, ou seja, agentes do Estado que deveriam combater a isso tudo como agentes do Estado e não encapuzados, por que o Estado, que os emprega e portanto tem poderes para fazer o mesmo de uma maneira legítima, não o faz? O que, se não vontade política, ainda falta para isso acontecer?

Mesmo que tenham ficado perguntas sem respostas e muitas por responder, 2007 já está aí e não adianta mais fingir que não é com a gente. Que este ano – que de novo não tem nada – traga a todos nós um pouquinho mais de respostas para que aos poucos as melhoras possam vir. Enquanto isso, deixa eu cantar: Get upa! Get on up!

Thiago Mattos.

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quinta-feira, outubro 05, 2006

Acode, acode!!

Mesmo que o Yom Kippur e o Ramadan façam efeito em quem fez e não fez o jejum, o mundo ainda precisará de muito defumador para espantar os fantasmas que andam pelos quatros cantos, junto com os demônios de cada religião. Pra muita gente, o ano acabou de começar e é tempo de uma purificação.

Aqui na terra do Tio Sam, as escolas do interior continuam dando o que falar. Semana passada, Colorado, Pennsylvania e Wisconsin tiveram problemas sérios com crianças mortas de uma forma brutal por assassinos de última hora. Mas agora não é hora de falar disso.

Deu uma vontade muito grande de votar. Confesso, tá dando medo do Sr. Alckmin ganhar. Minha caixa de e-mails tem andado cheia de propagandas tentando me convencer por que devo ou não votar em Lula, explicando por A + B que Geraldo Alckmin é tudo de ruim que há num candidato etc.

Sei que não podemos mais personificar o poder de um país nas mãos de um presidente, temos que dar vida às iniciativas não-governamentais (nao estou falando de ONG, Deus me livre) e ver quem estão por trás de um projeto político. Além do mais, já pensaram no bem que nos fez essa desmistificação em torno da imagem imaculada de Lula? Que bom que não acreditam mais nele, isso pode fazer bem demais ao país que já está com um olho no padre e o outro no papa que só diz besteiras.

Todos me perguntam: vem cá, faz realmente alguma diferença quem vai ganhar? Andei pensando, pensando e cheguei à seguinte conclusão: faz sim. Lembrei do Brasil antes e depois de Lula, comecei a pensar nas merdas que começaram a aparecer. Engraçado, antes tudo era mais cheiroso, ao menos não fedia tanto. Antes, corrupção era um coisa que a gente ouvia falar distante, sabia que existia mas no final não dava em nada. Comecei a pensar que até que é bom que a gente fale mal do homem, critique, mas quando pensei no Brasil tendo o Sr. Alckmin como presidente, confesso mais uma vez, deu medo.

E hoje nem vou falar da situação da minha querida cidade do Rio de Janeiro, que dá vontade de sair gritando pára tudo, pára, pára!!! Como deixaram essas pessoas se candidatar, Deus do céu? Então, como disse um amigo, rezemos, oremos, clamemos pelo perdão supremo. Yom Kippur e Ramadan não podiam vir em melhor hora.

Thiago Mattos.

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segunda-feira, setembro 11, 2006

Árabes, israelenses e flamenguistas

Se alguém atropela um cachorro ou um ciclista porque ele não devia andar na pista, tá tudo bem. E também tá tudo bem se jogam lixo na rua para não desempregar o lixeiro ou se alguém mata um lixo de pessoa, como era considerado o Coronel que ordenou as mortes do Carandiru.

Tudo, tudo, tudo bem se há menos de um mês da eleição ninguém fala dela ou ainda se ninguém que participa dela fala de algo realmente útil. E se não se fala quase nada além do que ja foi dito sobre um Setembro de 5 anos atrás já distante, tá tudo certo, bicho.

Ferreira Gullar declarou que a parte inicial do Poema Sujo era mesmo pra embromar, Caetano Veloso disse que há muitas cancões no mundo, publicam esse tipo de coisa nos jornais, um blog chamado sanguedbarata.blogspot.com comenta essa baboseira, algumas pessoas ainda ficam lendo e tá tudo bem, qual o pobrema? A falta do que falar faz a comunicação ser ainda mais complicada, ninguém se importa.

O racismo que ninguém viu e ninguém vê, a maldade que ninguém faz, o mundo que sempre foi essa coisa quase redonda girando. Meu filho, se controle se der vontade de cantar oh baby, baby, it's a wild world porque vem a economia e seus números, as pessoas e as palavras, tudo nos dá uma idéia de que não há com o que se preocupar e não há nada fora da nova desordem mundial. Se tá tudo tão certo, como poderia dizer “árabes, israelenses e flamenguistas uni-vos”?

Thiago Mattos.

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quinta-feira, julho 20, 2006

Merda acontece!

As engrenagens do Senhor da Guerra precisam de mais sangue para azeitar os lucros e assim começa mais um combate em nome da honra e da pátria. Israel, em busca de dois soldados capturados pelo Hizbollah, abre uma ofensiva contra o Líbano, mas até agora só civis estão morrendo – os números crescem a cada dia.

Aqui no “Ocidente Médio”, mais conhecido como São Paulo, as coisas não são muito diferentes. Bem, não temos nenhum tzahal envolvido mas é como se fosse. A cor do sangue é sempre a mesma e a dor grita em uníssono aos surdos.

O presidente estadunidense disse que tem que fazer o Hizbollah parar essa merda, com essas palavras em alto e mau inglês. Bem, ao menos uma merda bem colocada. Concordo com o W. Bush mas, presidente, diga como ahn?

Por aqui, a disputa eleitoral amplifica um embate tacanho e medíocre da parte dos candidatos. Por que não pagamos a todos eles uma excursão ao Líbano? Ok, sem generalizações. Deixa eu tentar de novo.

Em Brasília, a CPI dos Sanguessugas (nenhum deles é sangue bom, vale lembrar) cada vez incha mais a lista dos nomes que “não são necessariamente culpados”, ressalva Vossa Excelência. Até parece... O fato é que as legendas mais envolvidas são casualmente as dos partidos que participaram também com o mesmo vigor nos outros escândalos políticos, inclusive no ‘mensalão’. Alguém ainda topa a vaquinha mandando eles para o Líbano?

Bem, entre tantas merdas acontecendo no mundo há quem prefira ver a novela ou comprar o novo lote do trio da lvete, há quem fique falando mal de tudo escrevendo blogs e há quem só fique lendo. Que merda, hein!

Thiago Mattos.

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quarta-feira, maio 17, 2006

Quem são nossos presos?

São Paulo, o maior centro financeiro do país, finalmente se recupera depois de quatro dias refém do Primeiro Comando da Capital (PCC), uma facção criminosa que comandou uma onda de rebeliões dentro de 78 prisões. Os criminosos também promoviam do lado de fora das cadeias ataques a policiais por todo o estado, assim como o incêndio de ônibus, fóruns, agências bancárias e a morte de quase 70 pessoas.

Nesta segunda-feira (15/05), houve o maior congestionamento do ano na cidade e talvez tenha até registrado um recorde histórico: 195 Km às 17h30, deixando mais de 5 milhões de pessoas sem transporte, já que as empresas de ônibus não liberaram um terço da frota, temendo mais ônibus queimados. A onda de pânico que tomou conta da cidade pode até ter sido maximizado pela ampla cobertura jornalística da TV, como declarou o governo do Estado, mas de certo nos trouxe mais uma vez para o centro da discussão de um dos maiores problemas sociais que o Brasil enfrenta: a falta de uma eficaz política de segurança pública para lidar com a violência urbana.

A péssima condição do sistema carcerário brasileiro aliado à falta de uma integração entre as polícias federal, civil e militar, mais uma vez nos lembra que devemos tratar com seriedade este problema que faz vítimas impiedosamente. A ausência de organização federal contra o crime organizado e a fácil corrupção dos policiais, mal treinados e mal pagos, só pioram o problema.

Diferentemente do que ocorre no Rio de Janeiro, os criminosos de São Paulo estão muito mais organizados e centralizados. Os ataques coordenados, facilitados pelo uso de telefones celulares dentro das prisões, chamam a atenção pela maneira como operam. Detentos de outros estados também se rebelaram, obedecendo ordens vindas de São Paulo.

O dinheiro sujo gerado pelo tráfico de drogas e armas está criando redes que torna difícil diferenciar qual parcela vem de onde. Há também quadrilhas que se organizam pelo contrabando, pelo controle do recolhimento do lixo público ou dos transportes. Pouco a pouco, tudo se mistura. Logo, o dinheiro ilegal usado num financiamento de campanha eleitoral pode também ser o dinheiro manipulado pelos mesmos criminosos.

Pesquisadores e estudiosos apontam para a continuação dos ataques, seja dentro dos presídios ou nas ruas. O sociólogo francês Loïc Wacquant, professor de Berkeley e especialista no assunto, chama a atenção para o fato de que nas últimas décadas as elites políticas brasileiras têm usado o estado penal – a polícia, os tribunais e o sistema judiciário – como o único instrumento não só de controle da criminalidade como de distribuição de renda e de fim da pobreza urbana. O sistema penitenciário funciona como um “campo de concentração” para os muito pobres, segundo ele.

Por tudo isso, as causas do crime devem ser atacadas na raiz, não mais apenas remediadas. O próprio Estado propaga o preconceito de classe e de raça através da maneira como trata o assunto. Precisamos providencialmente enxergar que a falha está na desigualdade social mantida institucionalmente no Brasil. Episódios como o massacre do Carandiru ou o assalto do ônibus 174 nos lembram que enquanto ignorarmos a raiz do problema, a morte de inocentes será tratada como um acontecimento banal.

Thiago Mattos.

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sexta-feira, abril 07, 2006

'Alegria de palhaço é ver o circo pegando fogo'


Pois bem. Morreu o saudoso palhaço brasileiro Carequinha, o primeiro que veio pra carimbar a nossa condição de povo circense, e a sua morte não poderia vir em melhor hora para marcar no tempo a era da palhaçada que o país está atravessando (há muito tempo, diga-se de passagem).

Um assaltante é morto com três tiros na cabeça em plena Avenida Nossa Senhora de Copacabana às 6 da tarde, após uma perseguição cinematográfica pelas ruas do bairro por policiais depois de roubar um apartamento e ninguém acredita na letalidade da nossa policia, novamente confirmada, que não respeita o direto à vida e atira para matar. Enquanto isso, a gente assiste a tudo quieto sem reclamar, sorrindo aliviados com a morte de menos um bandido no mundo.

Deputados estão sendo absolvidos sucessivamente, mesmo após confessarem que receberam dinheiro ilegal, a classe política sendo ridicularizada e o povo dando risada, dizendo que se estivessem lá em Brasília roubariam também. Os presidenciáveis sendo engolidos na areia movediça que criaram, tergiversando desculpas e todo mundo dando gargalhada. Hoje tem marmelada? Tem, sim senhor!

A verdade é que ninguém está nem aí. Exemplo simples e próximo: quando eu escrevo aqui neste blog expondo as besteiras do orkut, todos se inflamam e se manifestam. Entretanto, se aqui neste mesmo espaço proponho a discussão de temas mais políticos, por assim dizer, só 2 ou 3 pessoas deixam comentários. Se falasse sobre quem vai comer quem na novela talvez houvesse uma participação ainda maior dos meus leitores. Hoje tem goiabada? Tem, sim senhor!

De qualquer forma, agora que nosso ícone da palhaçada se foi, só precisamos nos olhar no espelho para rir da nossa própria condição burlesca de povo bestializado e besta. O circo está pegando fogo mas, de tanta gargalhada, o povo não percebe que está morrendo queimado.

Thiago Mattos

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