Elogio do perdão
Se há um dia santo que eu goste é o Yom Kippur.Apesar de passar praticamente despercebido no Brasil (país de orientação essencialmente católica), O Yom Kippur parece realmente ter um sentido nobre: é o dia do perdão. E atualmente, com o mundo doente como está, o perdão merece ser debatido e o dia vale ser lembrado.
Na verdade, não me faz muito sentido dia de São isso e Santo aquilo - se bem que fazia o de São Cosme e São Damião quando eu era pequeno e gostava de doces - mas os feriados religiosos perderam toda a sua essência com o passar das décadas. Ainda mais aqui no Brasil, um país com tantos feriados que a gente nem dá conta de saber qual é qual.
E olha que ainda estão querendo ter mais um dia santo em homenagem a Frei Galvão, o primeiro santo com site do mundo! A única pergunta que vem é: o que mais precisam inventar para venderem?
Pensem só: Natal virou a festa dos presentes que você tem que dar (ai de você se não comprar um agrado!): é a festa do comércio! A Semana Santa resume-se ao Domingo de Páscoa para enchermos a pança de chocolate, tem para todos os bolsos: é a festa do comércio!
Corpus Christi geralmente se emenda e é um dos feriados preferidos da galera da pegação que está mais para o "Corpus" do que para o "Christi" em seus carnavais fora de época. Conclusão: o pessoal do turismo fatura uma bába e quem faz a festa? É a festa do comércio! Dia de Nossa Senhora Aparecida é basicamente conhecida como Dia das Crianças, e o que é o que é? É a festa do comércio! E por aí vai...
É muito dia santo para um país laico só.
Mas aí chega o Yom Kippur sem pedir licença a ninguém, impõe ao fiel um jejum do nascer ao pôr do sol que dura dias, muita reflexão e oração e não se fala mais nisso. O dia do perdão pretende fazer com que se preste atenção à alma e não ao corpo. E, é lógico, não há judeu que aguente.
Sabe o que penso disso tudo? Que o Yom Kippur mostra que é muito difícil perdoar, não é para qualquer um. Tem que aguentar, renunciar, sofrer e tornar-se praticamente supra-humano.
A prática do Yom Kippur parece a melhor metáfora para o perdão. E numa era onde o perdão virou moeda de troca, ganhou valor de uso e instrumento de dominação, perdoar e ser perdoado pode deixar toda a nobreza do gesto de lado e tornar-se apenas um exercício de poder.
Perdoar é algo que definitivamente não pode ser festejado pelo comércio.
Thiago Mattos.
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