quarta-feira, janeiro 27, 2010

A batalha pela livre circulação do conhecimento

Na última segunda-feira (25), o editor-chefe do jornal britânico The Guardian, Alan Rusbridger, deu uma resposta à altura para a campanha ferrenha do bilionário Rupert Murdoch de introduzir formas de cobrança nos sites de notícia.

Segundo Rusbridger, a cobrança universal pelo conteúdo desses sites acabaria por tirar a indústria jornalística da revolução digital que está permitindo, como nunca, o engajamento entre os leitores e os jornais. Ele defende um diferente modelo de negócio, que leve em conta um acesso majoritariamente grátis, onde haveria cobranças apenas em alguns casos – como conteúdos especiais, por exemplo.

Numa outra ponta da discussão está Murdoch e seu império da comunicação, que inclui, entre outros, The Wall Street Journal e The Times. Murdoch já anunciou para ainda este ano a cobrança nas versões online dos dois jornais anteriormente citados. Seu maior argumento é que “jornalismo de qualidade não é barato”. Ao que Rusbridger, o defensor das notícias grátis, responde lembrando o corte no preço dos jornais promovido deliberadamente por Murdoch, para vencer seus competidores.

Esta é uma discussão atualíssima e deve interessar a todos que se relacionam com meios de comunicação, a todos que vendem ou consomem notícias. As decisões que estão prestes a ser tomadas, e o modo como serão recebidas, podem afetar a vida de todos nós.

Recentemente, The New York Times também optou pelo modelo da cobrança de conteúdo, que será feito a partir de 2011. Ao que tudo indica, a cobrança pelo conteúdo da versão online do jornal nova-iorquino se dará por um aplicativo produzido pela Apple – que acabou de anunciar o seu iPad, uma espécie de “I-Phonão” que permitirá, entre outras coisas, a leitura de jornais e revistas com uma incrível qualidade visual.

O certo é que muita coisa está acontecendo e precisamos ficar atentos. Consumimos e somos engolidos pelas mais diversas mídias – TV, jornais, revistas, rádios, vídeo-games, propagandas, internet, celulares. Em meio a tudo isso, cobrar pelo que pode ser obtido de graça é, no mínimo, oportunista.

Nesse fim da primeira década deste começo de milênio, é cada vez mais fácil obter informação de qualquer tipo. Mais que uma aposta segura – há uma torcida – para que Murdoch esteja errado. E que assim continue a livre circulação do conhecimento.

Thiago Mattos.

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terça-feira, setembro 01, 2009

70 anos da Segunda Guerra Mundial

Há 70 anos, a Wehrmacht (Exército alemão) e a Luftwaffe (Força Aérea alemã) invadiam a Polônia, dando início a um triste capítulo da história da humanidade: a Segunda Guerra Mundial.

Conforme assinalou Alberto Dines, nossa mídia registrou a data apenas de maneira burocrática - pouco se aprofundou nas causas que levaram à guerra. E, como muito do mundo de hoje se explica olhando para aqueles dias, pouco ainda entendemos sobre nosso tempo.

"A Segunda Guerra Mundial não acabou, à capitulação alemã seguiu-se o bloqueio de Berlim, o golpe na Tchecoslováquia, o confronto na Grécia, a guerra na Coréia, na Indochina, na África, no Oriente Médio. É a mesma guerra ideológica com outros formatos, beligerantes e motivações. É a mesma capacidade de simplificar ideias através do ódio", escreveu o jornalista em sua coluna no Observatório da Imprensa.

Se a intenção é deixar o passado o mais longe possível do presente, é importante continuarmos nos relembrando de modo a nunca esquecê-lo. Quem sabe, assim, os erros de ontem possam continuar nos ensinando hoje.

Thiago Mattos.

Para ler mais:
Um conflito que mudou o mundo
Polônia, o país mais devastado

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quinta-feira, julho 09, 2009

Quem tem medo de Rupert Murdoch?

Rupert Murdoch está a frente de um império da mídia mundo afora. Seu conglomerado, News Corp., abrange 789 empresas baseadas em 52 países e controla quase tudo no mundo da comunicação e do entretenimento: jornais, revistas, satélites, redes de TV, estúdios de cinema, internet e até mesmo times norte-americanos de beisebol, hóquei e basquete.

Murdoch parece disposto a comprar o mundo. Ao que tudo indica, com tanto dinheiro e poder concentrado não deve ser muito difícil.

De acordo com acusações do jornal britânico The Guardian, o grupo de mídia de Murdoch, por trás dos tabloides News of The World e The Sun teria pago em segredo mais de 1 milhão de libras (cerca de R$ 3,2 milhões) para evitar processos judiciais nos quais seus jornalistas eram acusados de envolvimento no grampo de até 3.000 telefones de figuras públicas da política, do esporte e do entretenimento.

O jornal The Guardian afirma que os tabloides contratavam detetives particulares para invadir os celulares de celebridades e conseguir acesso a dados pessoais confidenciais, como por exemplo contas e extratos bancários.

Notícia quentíssima para quem pensa o mundo da mídia. Não se pode esquecer que estamos falando de empresas e de empresários que, muitas vezes, quanto mais poder, menos escrúpulos têm. É bom lembrar que Ted Turner, o dono da CNN e rival de Murdoch, uma vez lhe comparou a Hitler.


Mas afinal de contas, quem tem medo de Murdoch?


Thiago Mattos.

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quarta-feira, julho 01, 2009

"Nada será como antes"

Há uma semana, enquanto os canais de TV exibiam imagens do hospital da UCLA e ainda apuravam a notícia, esperando a confirmação da morte de Michael Jackson, o site TMZ já dava o furo horas antes na Internet: o “Rei do Pop” estava morto por conta de uma parada cardíaca.

Dias antes, a estudante de filosofia Neda Agha-Soltan foi morta com um tiro enquanto assistia uma manifestação em Teerã, por conta das denúncias de fraudes nas últimas eleições presidenciais no Irã. Sua imagem agonizando foi parar na internet muito mais rápido que a notícia pudesse chegar à grande imprensa.

O mundo está mudando e a maneira de fazer notícia também; só não está vendo esta mudança quem não quer.

Nunca se viu tanto espaço e participação do público no processo de construir e modelar a notícia. Seja com os vídeos amadores que podem ser filmados através de qualquer celular (cena dos paramédicos chegando na casa de Jackson, ou da jovem iraniana agonizando ensanguentada no meio da rua), seja com a ajuda de redes sociais, blogs e sites cada vez mais citados pelas mídias tradicionais, que agora recebem as notícias praticamente prontas, tendo apenas o trabalho de apurar.

A participação da Internet na confecção da notícia tem sido e será cada vez mais presente, é inegável e inevitável. Mesmo depois de “fontes confiáveis” confirmarem as informações, a mídia mais convencional não abandona as mais alternativas.

Por exemplo, os blogs são um sintoma da Cauda Longa, do qual Chris Anderson já nos chamou a atenção, de um modelo onde a quantidade de nichos aparentemente infinitos alteram tudo o que é tradicional. O acesso à informação já não se dá mais de um modo passivo como era antes, numa mão única de cima para baixo, onde não podíamos interagir com os fatos.

Os blogueiros, embora não disponham de garantia da exatidão, dispõem de uma melhor máquina de correção de erros do que a mídia convencional. Além disso, milhares de blogueiros criam blogs especializados em um determinado assunto, com uma profundidade invejada por muitos jornalistas da mídia tradicional. Não bastasse tudo isso, a possibilidade dos comentários dos leitores os enriquecem ainda mais, permitindo mais informações sobre um determinado tópico ali discutido. Os milhares de blogs oferecem uma absurda quantidade de informações a custo praticamente zero e, na maioria dos casos, sem vender propaganda.

Tudo isso já deve ser o suficiente para que a mídia convencional (em especial, a TV e os jornais) reflita mais sobre sua atuação no mercado, para uma questão de sobrevivência. O fechamento de diversos jornais mundo afora não deixam mentir. Por que não incluir também em toda essa discussão os próprios cursos de jornalismo, além da polêmica questão da obrigatoriedade do diploma? Por que continuarmos os mesmos, já que nada será como antes?

Thiago Mattos.

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segunda-feira, abril 28, 2008

Fala, meu povo! (matando a cobra e mostrando o pau)

Declarações inusitadas ouvidas acidentalmente de manhã, de um programa de TV:



"Nunca aconteceu isso nesse bairro aqui..."
(De uma paulista entusiasmada e sorridente pela oportunidade de dar uma entrevista)

"A atração do fim de semana foi essa"
(De um outro que foi com toda a família visitar o local do crime)

"Eles estão montando palanque como se fosse carnaval"
(De uma moradora, revoltada com a muvuca em seu bairro)

"Eu sou de Ponte Nova, MG. Andei 850 Km pra mostrar a indignação do país nesse caso tão monstruoso... Sai de casa sexta-feira e estou aqui sem dormir até agora [Domingo], me alimentando muito mal e ficando na cruz numa faixa de 10, 11 horas por dia"
(De um penitente mineiro que usava uma máscara e carregava nas costas uma cruz com fotos da família Nardoni, pedindo justiça)

"Minha imagem vai ser mais aqui embaixo... Na portaria... Na queda da Isabella..."
(De um cinegrafista contando o que filmará na reconstituição do crime. No caso, referia-se à boneca de R$18 mil que seria jogada pela Perícia, simulando o assassinato)

"Diz que tem um apartamento que cobrou 15 mil. A escolinha parece que cobrou 10 mil, coisa assim"
(De um morador especulando sobre o aluguel cobrado pela vizinhança à imprensa para lugares estratégicos)

"Se eu soubesse eu podia ter alugado, porque do meu apartamento eu enxergo direitinho o quarto"
(De um morador sorridente, mas frustrado pela ignorância e triste pela oportunidade perdida)

"As emissoras de TV começaram a me procurar querendo emprestrar [sic] minha sacada. Eu falei 'não', que seria um absurdo, que isso ia me trazer problemas, e elas resolveram me fazer um proposta: 'vamos alugar então, a gente paga e você nos cede o espaço'..."
(Da proprietária de uma salão de beleza próximo à Delegacia onde se concentram as investigações do caso, que mudou rapidinho de idéia, declarando ganhar em torno de R$ 1.500 como aluguel)

"4 na sacada e 3 na laje"
(Da mesma pessoa anterior, respondendo a quantas emissoras havia recebido no estabelecimento)

"Nós pegamos uma amizade e quando vocês forem embora, a gente vai sentir saudades"
(Da mesma proprietária, que certamente sentirá falta do dinheirinho extra)

"Domingo é um dia tão vazio, né? Geralmente a gente não tem nada mesmo pra fazer..."
(De um entediado cidadão respondendo por que foi assistir à reconstituição do crime)

Enfim, cada povo com o que merece, certo?

Thiago Mattos.

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sexta-feira, abril 18, 2008

"Nada do que é humano me é estranho"

Somos todos espectadores vorazes e assistimos condicionados e famintos por mais notícias. Esqueçam o trânsito, a dengue, as bolsas de valores e o Tibet! O circo está armado e estamos ligados no Caso da Menina Isabela.

Assistimos seu corpo sendo devorado pelas emissoras de televisão que montaram seus palcos e buscam exclusividade até no último peido que a Menina soltou. Não estranhem se em pouco tempo forem lançadas bonecas Menina Isabela ou coisas do tipo (“nada do que é humano me é estranho”, lembram?).

O que está acontecendo é terrível e, por ser encarado como normal, quase ninguém estranha. Não, não estou aqui para dizer minha teoria mirabolante-indefectível, nem apontar os culpados, pois isso é o que mais fazem por aí. Estou aqui para discutir a influência da atitude canibal dos nossos meios de comunicação frente à tragédia do mês (ou será que já esqueceram a do mês passado?).

É claro que nos choca que uma menina de 6 anos incompletos tenha sido assassinada, principalmente do modo como foi. Mas a superexposição, as tantas especulações, a proposital falta de assunto – que torna banal qualquer outra notícia – os furos de reportagem, as entrevistas exclusivas, enfim, o espetáculo que se armou em torno disso tem sido uma barbaridade à altura da outra. E no meio de tantos malucos não há qualquer sanidade.

Estamos expostos a um jornalismo doente, que contagia seus consumidores e os insere numa roda vida de terror, tragédia, violência e medo sem saída. O clima de linchamento nacional, a incitação subjetiva à justiça com as próprias mãos, a repetição das imagens over and over again são artifícios para vender e ganhar ibope que deixa doente a quem assiste a tudo na condição de espectador.

Como homem, e diante de tal fato, reconheço: muito do que é humano é bem estranho sim e, como seres humanos, devemos estranhar nossa própria condição animalesca que tem sido aguçada, que se delicia e quer porque quer ver mais sangue.

Dica: não se deixem contaminar. Troquem logo de canal.

Thiago Mattos.

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quarta-feira, junho 06, 2007

"Hang The DJ"

Enquanto rádios piratas são fechadas pelo Brasil afora e universidades tentam dar voz a quem não tem, inaugurei recentemente por aqui a Rádio Sangue Bom – acionada automaticamente a quem acessa o blog.

Todo mundo já sabe que se ligar numa FM durante uma semana inteira no mesmo horário, ouvirá sempre a mesma coisa. Nenhuma rádio é sangue bom com a gente,
querem nos convencer (e muitas vezes o conseguem por osmose) de que devemos consumir aquela música. As barreiras impostas pelas rádios convencionais bloqueiam a informação, restringindo e interferindo no gosto musical dos seres humanos.


A posição passiva dos ouvintes - camuflada pelo mito das "mais pedidas" - não poderia durar muito tempo. A maravilha da Internet tornou possível a interatividade e nosso papel ativo na construção de nossas realidades: podemos ter acesso a coisas novas (ainda que de um século atrás) e trocar informações até então inacessíveis.

Numa tentativa de divulgar o que escuto por aí, mas nunca nenhum de nós ouviria numa rádio comum, surge a Rádio Sangue Bom. Com atualizações mensais, tocarei todos os estilos que me fizerem a cabeça, aceitando sugestões e pedindo opiniões.

No programa do mês de Junho, ouviremos clássicos consagrados como Hendrix, novidades como a francesinha apaixonante Olivia Ruiz, e covers como a releitura de Dylan feita pelo nigeriano Keziah Jones.

Espero que gostem, votem na que mais lhe tocarem e participem na formulação da programação. Assim vou pegando também o gosto de quem lê o blog e juntos podemos fazer a nossa rádio. É ou não é, sangue bom?

Thiago Mattos.

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quinta-feira, maio 31, 2007

"Quem lê tanta notícia?"

Informar é algo perigoso.

Sempre convém desconfiar do que nos é informado e conferir a validade dos ensinamentos. Nossos meios de comunicação – principalmente as TVs – assumem uma ambiciosa tarefa em nossa realidade: “educar” milhões de espectadores que tomam o que é dito e visto como a mais pura e inquestionável verdade. E é aí que mora o perigo.

Recentemente, o presidente venezuelano Hugo Chávez decidiu não renovar a concessão pública à RCTV (uma espécie de Rede Globo da Venezuela), despertando o clamor da mídia corporativista – quem diria – por “liberdade de imprensa” e “respeito à opinião pública” na América Latina.

Contudo, a campanha que vem sendo promovida evocando tais palavras de ordem é, no mínimo, patética. Não precisa ser nenhum entusiasta do presidente bolivariano para perceber que os fatos vão sendo deformados e o que precisa ser discutido se esconde. Na luta pela hegemonia, fala-se em “fechamento do canal” e em “liberdade de expressão”, mas pouco é dito acerca do papel dos meios de comunicação, tampouco é analisado o histórico da emissora que foi o pivô da tentativa de golpe de estado frustrado em Caracas, em Abril de 2002.

Como disse Muniz Sodré, “o ato governamental foi respaldado pelo preceito constitucional que outorga ao Estado a administração do espectro radioelétrico”. O Estado ainda é detentor de concessões de serviços públicos, como as de radiodifusão e de transportes, por exemplo – que podem ser interrompidos de maneira unilateral, caso não atenda mais aos interesses do Estado. Mas talvez não seja assim por muito tempo.

O documentário A Revolução Não Será Televisionada nos ajuda a entender o que houve com a emissora que encerrou seus trabalhos no último domingo de Maio deste ano após a medida de Chávez. E nos faz imaginar o bem que uma medida como essa não faria por aqui, não é mesmo?

Thiago Mattos.

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terça-feira, maio 22, 2007

CPI em todo mundo!

Sidarta Gautama (que na história budista largou sua vida de príncipe para atingir o nirvana) - quem diria - teria seu nome associado à construtora que, segundo os relatórios da Polícia Federal (PF), pagou uma propina de R$ 100 mil ao então ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau. A explicação é que o dono da Gautama (construtora) se diz budista. Sabe-se lá que budismo é esse.

Todo esse estardalhaço para nada, pois qualquer brasileiro sabe que no Brasil funciona assim: “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”, isto é, a Igualdade escrita em nossa Carta Magna nunca foi igual. Quanto melhor um cidadão se coloca na esfera pública – seja exercendo um mandato ou ocupando um cargo – mais privilégios ele tem a sua disposição e, logo, é mais difícil de puni-lo.

Fico maravilhado em como a PF trabalha bem e traz resultados. A cada mês, um novo escândalo político. Ora, ou corrompemos de modo muito sedutor (e por isso tanta coisa podre aparecendo), ou tudo está sendo transformado em espetáculo, passível de venda e consumo.

Não ponho minha mão no fogo por ninguém. Estudo os problemas deste país e nossa história de corrupção. Sei como é difícil pôr na cabeça de quem ocupa um posto público que aquilo não é seu – esse ranço patrimonialista grudou. Posto isto, não pretendo eximir ninguém de culpa. A probabilidade de que tudo ainda seja muito pior do que mostram os jornais é grande.

Fatos como o desespero dos parlamentares frente a qualquer sugestão de criação de uma CPI dentro do Congresso (apenas defendida pelo PSOL e PPS) e investigando os indícios de aliciamento de parlamentares em troca de emendas, diz muito. No fim das contas, os partidos se protegem. É vergonhoso.

Por outro lado, não consigo deixar de pensar que há algo de podre em nosso reino quando um assunto é alardeado sem ser discutido do jeito que é. Por exemplo, por que a grande imprensa não explora o tema do financiamento de campanha, ou da relação entre os mandatos de Brasília e as emendas vendidas? Por que não é divulgado quem banca cada ocupante de uma cadeira no Congresso? Quem representa os interesses de quem?

No final, com tanta informação truncada e acusação atrás de acusação, parece que nossa grande mídia corporativa (aquela que precisa vender) apenas nos entretém. Caso contrário, poderia ter seu calcanhar de Aquiles exposto. Afinal, quem lhe disse que sua ficha é limpa?

Já sei. Vamos mandar a PF investigar!

Thiago Mattos.

Imagem:
http://www.ribimbocadaparafuseta.blogspot.com/

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quinta-feira, maio 10, 2007

Precisamos de um milagre!

O espetáculo criado em torno da visita do Papa Bento XVI ao Brasil só perde para o espetáculo criado em torno do tão aguardado Pan – apelido carinhoso da 15ª. edição dos Jogos Pan-americanos, que acontecerá desta vez no Rio de Janeiro.

Joseph Ratzinger chegou ao Brasil num dia bem conveniente aos parlamentares de Brasília: a mesma quarta-feira em que foi aprovado o aumento dos salários dos nossos congressistas em 29,81%, passando para R$ 16.512,09 - o que representará um gasto extra superior a R$ 600 milhões por ano. Os novos salários serão:

Presidente da República

R$ 11.400

Vice-Presidente da República

R$ 10.700

Ministros

R$ 10.700

Parlamentares

R$ 16.512


Para se ter uma idéia, além do seu salário, um deputado atualmente recebe outros benefícios como:

13º. salário

R$ 12.847

Verba indenizatória

R$ 15.000

Auxílio-moradia

R$ 3.000

Verba de gabinete

R$ 50.851

Telefones e correios

R$ 4.268

Ajuda de custo (2 vezes ao ano)

R$ 12.847

Passagens aéreas

Depende do Estado


A visita estratágica do Papa que, entre outras coisas, tenta recuperar a cambaleante influência da Igreja Católica na América Latina, veio em boa hora. Com o catolicismo falido e desertado - nem os shows do Padre Marcelo conseguiram segurar por muito tempo os fiéis - toda manobra política dentro da Igreja é possível. Não se espantem se em pouco tempo João Paulo II for canonizado também. Opus Dei... Opus Dei...

Em boa hora vem a questão se o Brasil é realmente um Estado laico e até onde vai a interferência insistente e chata da Igreja Católica em assuntos vitais como a legalização do aborto e a polêmica que envolve as pesquisas com células tronco, por exemplo. Como disse nosso atual ministro da Saúde, José Gomes Temporão, o aborto não é uma questão filosófica mas sim uma questão de saúde pública - milhões de mulheres morrem por ano devido a esse problema que não é discutido abertamente.

Mas quem se importa? Temos o Papa e logo teremos o Pan! Mais que isso: teremos um santo brasileiro e (oba!) talvez mais um feriado! Com tantos absurdos por aqui, parece que precisamos mesmo de um milagre.

Thiago Mattos.

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segunda-feira, maio 07, 2007

E daqui a cinco anos?

O povo francês escolheu seu novo presidente. Com 53% dos votos, o conservador Nicolas Sarkozy derrotou a socialista Ségolène Royal, que chegou aos 47%. Diferentemente do que acontece no Brasil, o voto na França não é obrigatório. Mesmo assim, o país registrou o maior índice de participação nas urnas em 20 anos – cerca de 85% dos franceses votaram.

As notícias publicadas sobre a vitória de Sarko – como o chamam seus entusiastas – vão de especulações de cenários mais caóticos sobre o incerto futuro francês às possibilidades mais férteis de uma mudança para melhor no país. Em muitos casos, as informações parecem chegar poluídas, dependendo de quem as escreve.

Acompanhei os debates, a votação e a cobertura internacional da eleição. Logo após o fechamento das urnas, saiu o resultado parcial dos votos – que é super-rápido na França. Ségolène Royal prontamente reconheceu sua derrota, dizendo que “o sufrágio universal se expressou” – os socialistas estão longe do Palais de l’Elysées desde 1995, último ano de François Mitterrand no poder.

Minutos depois, Sarkozy faria seu discurso de vitória tentando ser conciliador e causando surpresa entre os que o ouviam. Mostrando respeito pelas as idéias de sua rival socialista, disse que seria o presidente de todos os franceses. Também mandou um recado aos “amigos americanos”, lembrando da amizade entre os dois países: “amizade é aceitar que seus amigos podem pensar diferente” – frase que deixa dúvidas quanto a tão propagada admiração de Sarkozy pela política de George W. Bush.

Sarkozy ainda lançou um apelo ecológico ao seu amigo que fala inglês: “uma grande nação como os EUA tem a responsabilidade de não fazer obstáculo na luta contra o aquecimento global mas, ao contrário, assumir essa luta pois o que está em risco é o destino da humanidade”.

Claro que sabemos que uma coisa são as palavras do discurso, outra será a prática. Teme-se que as promessas do conservador custarão muitos direitos sociais do povo francês. Sarkozy venceu dizendo que vai trazer a França de volta ao trabalho.

Dentre os pontos do seu programa de governo, destacam-se a flexibilização da carga máxima de 35 horas semanais de trabalho, a diminuição de impostos sobre as horas extras e a criação de um Ministério da Imigração que enfrentará com uma postura mais rígida os imigrantes ilegais no país.

Filho de um imigrante húngaro, Sarkozy chamou de racaille (algo como ‘gentalha’) os jovens filhos de imigrantes das periferias envolvidos nos protestos, causando ainda mais revolta entre eles. Na mesma noite em que saiu o resultado das eleições francesas, 367 carros foram queimados e 270 pessoas foram presas após enfrentamento com policiais. Os violentos protestos tomaram conta da Place de la Bastille em Paris e de outras cidades como Lyon, Toulouse e Marseille. A truculência policial não é exclusividade brasileira.

Com quase metade do eleitorado insatisfeito, os desafios de Sarkozy à frente da sexta maior economia industrial serão muitos. Unir a França é apenas um deles. O desemprego no país chega a 10% e já em Junho terá de enfrentar as eleições legislativas. Além disso, precisará de muito manejo político para lidar com a situação do refém francês nas mãos do Talibã e as conseqüências do veto a Turquia na União Européia.

Fica agora a curiosidade de saber como será a França nos próximos cinco anos.

Thiago Mattos.

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domingo, fevereiro 11, 2007

Olho por olho, dente por dente

O que dizer da mais nova polêmica promovida pela grande mídia corporativista: a pena de morte. Que os bandidos responsáveis pela morte de uma criança inocente também devem ser mortos a fim de que tudo se resolva em paz? Que os facínoras não são mais humanos e, portanto, perderam seus direitos? E, por conseguinte, devem ser torturados e arrastados no mesmo trajeto para sentirem a mesma dor e pagarem o que fizeram?

Não há dúvida de que ninguém aceita a impunidade. Todos nós, chamados cidadãos de bem, queremos justiça, de um modo ou de outro. Mas até que ponto essa justiça com as próprias mãos resolve o problema? Seria mesmo esse o melhor exemplo a ser dado? Olho por olho e dente por dente, seria essa a justiça ideal?

Há muitas perguntas e sugestões do que deve ser feito. No entanto, para qualquer dessas possibilidades, pouco se entende do que se fala e, no sentido oposto, pouco se faz. É óbvio que uma pena de morte não institucionalizada já existe e é praticada no Brasil. Destina-se a um público alvo. Quem disse que nossa polícia não é boa? Quando o assunto é matar, ela é exemplar.

Mesmo que houvesse uma redução da maioridade penal e a imediata instalação da pena de morte (que sou veementemente contra, diga-se de passagem), me parece que de nada adiantaria se não fossem melhoradas as condições das prisões, da polícia, do Judiciário e de todo um tecido social que está carcomido por dentro.

Estamos todos desesperados por soluções imediatas, carentes de uma esperança de que tudo possa melhorar. A morte de um inocente em quaisquer circunstâncias gera comoção e revolta. Mas qualquer solução encontrada num momento como este, onde todos querem sentir o gosto de mais sangue derramado, não parece ser de bom-senso. Precisamos parar um pouco de reclamar e ir à reunião de condomínio. Isso para começar.

Thiago Mattos.

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terça-feira, janeiro 09, 2007

Foi-se o tempo de olhar no buraco da fechadura

A determinação judicial que bloqueou o acesso de 5 milhões de internautas brasileiros ao YouTube é mais que ridículo, é uma vergonha iniciada por uma modelo-manequim-ex-de-jogador sem-vergonha, talvez não por ter dado publicamente para seu namorado numa praia da Espanha, mas por ter imposto na Internet brasileira uma censura digna do Chairman Mao. Se bem que a comparação chinesa nem precisa ir tão longe – alguém se lembra do que aconteceu com o governo chinês e a Google recentemente?

A exposição da pobre moça, que foi pega de calça curta, tem sido uma das notícias mais comentadas da semana. Agora, imaginem se pega a moda da censura na Internet. Sites sendo bloqueados, blogs sendo filtrados, alguns liberados, e-mails vasculhados... Realidade distante, será? Do jeito que a coisa vai, fica difícil de saber.

Polêmicas sobre o uso da Internet e da divulgação de material produzido na rede tem sido uma constante e que, ao que parece, continuará sendo enquanto for discutido hipocritamente. O que chama mais a atenção neste caso específico é que não houve qualquer invasão de privacidade da dita-cuja, mas, ao contrário, uma evasão.

Foi ela (vocês sabem quem) que resolveu deliberadamente se expor publicamente para quem quisesse ver, filmar ou tirar fotos, virando notícia na Espanha, no Brasil e em todo canto. Depois ainda teve a cara-de-pau de abrir um processo judicial em cima de sua própria falta. Foi-se o tempo de olhar no buraco da fechadura. Agora, quem precisa dos paparazzi, quando todos querem se mostrar?

Thiago Mattos.

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segunda-feira, dezembro 18, 2006

A personalidade do ano


Segundo a edição desta semana da revista TIME, fui eleito a Personalidade do Ano. Está lá escrito para quem quiser ler no editorial: “Por tomarem as rédeas dos meios globais, por fundarem e forjarem a nova democracia digital, por trabalharem de graça e superarem os profissionais no jogo deles, a Personalidade do Ano da TIME é você”.

Eu? Sim, evidentemente não apenas eu quem vos escreve – Thiago Mattos – mas muitas facetas que compõe esta pessoa chamada de “você” pela revista, da qual fazem parte blogueiros motivados apenas pela paixão e desejo de colaborar socialmente; contribuintes do YouTube, que mostram do que é feito o mundo com os mais diversos tipos de vídeos, que podem ter usos múltiplos na democratização da informação; usuários de redes como MySpace, que podem divulgar suas canções; leitores interativos da Wikipedia, enciclopédia virtual e livre, onde todos podem editar; nos podcasts e em muitos outros exemplos trazidos juntos com o que os consultores do Vale do Silício chamam de Web 2.0, a revolução da Internet.

Na minha modesta e agora importante opinião – endossada pela TIME – é por aqui que podemos de forma mais ativa e pungente atuar socialmente, seja na denúncia aos escandalosos aumentos de salários que os nossos parlamentares se auto-concedem ou nos eventos menores, mas não menos importantes, como a pouco-vergonhosa inauguração de uma linha do metrô que não funciona, como a estação Cantagalo em Copacabana.

Aqui, neste imenso latifúndio chamado Internet, com nosso humilde trabalho de formiguinha – voluntário e impagável – nós, usuários-contribuintes, mostramos que fazemos parte do mundo como ele está, queremos ter nossa voz ecoada por termos algo a dizer e fazemos por onde torná-la ouvida. Essa explosão de produtividade e inovação, como destaca a revista, está apenas começando e é uma oportunidade única para fazermos – de cidadão a cidadão – um novo modo de compreensão e interação social.

Por isso tudo, parabéns a mim que escrevo e a você que lê, comenta e interfere nisso tudo, mostrando que, mesmo que ainda não percebamos a dimensão disso tudo, algo está mudando no jeito de nos comunicarmos. É ou não é, malandro?

Thiago Mattos.

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terça-feira, novembro 28, 2006

Que mundo é esse?

Digamos que a morte do Jece Valadão, ícone inspirador dos cafajestes brasileiros, e o aparecimento do meu caro amigo André Luiz Coelho no programa da TVE ontem à noite, falando sobre as eleições equatorianas, me tiraram do meu ostracismo virtual, coisa que acontece mesmo com quem escreve em blog uma hora ou outra. Chega uma hora em que dá no saco e você tem uma leve porém não desmentida sensação de quem ninguém está te lendo. Aliás, por que o fariam?


Aí então pensei: do que adianta você querer puxar um assunto sobre os altos salários dos ministros ou dos desembargadores, ou ainda especular sobre os assaltos a turistas, até mesmo a chamada “crise aérea” se você está falando sozinho? A verdade mesmo é que ninguém está interessado nem nos foguetes qassam nem em quem vai ser o próximo presidente do Equador, infelizmente.

Logo assim que comecei o Sangue, publiquei um texto falando por que não estava no Orkut. Um tempo depois resolvi estar e provar minha tese dos problemas que ele causa. Não deu outra. As pessoas perguntavam e se espantavam: Não acredito! Viu o mal que a língua faz? E as risadas de hiena ecoavam. Isso foi notícia durante um tempo: Você sabia que o Thiago entrou no orkut? Menina, que coisa! Que mundo é esse em que estamos?!

Pois é, minha vida volta e meia vira notícia, basta eu fazer alguma coisa e, quando as pessoas descobrem da coisa inicial, acaba que alguém me conta de algo que nem sabia que tinha feito. Essa é a notícia mais falada, a da boca pequena, o que acontece do outro lado da parede, a vidinha da amiga da tua prima que fez 3 abortos ou do teu vizinho traficante careca que tem uma namorada vesga e cheia de tatuagens.

Será que se eu começar a contar minhas estórias e aventuras, confessar meus erros e vangloriar-me de minhas vitórias, mentir e ser sincero, ser simplesmente humano e falar das coisas mais mesquinhas e íntimas as pessoas se interessariam? Porque ter um blog, uma banda, fazer uma peça, ser artista, tudo isso é se expor. E tenho descoberto os perigos e males de se expor. De ser simplesmente quem você é mas em olhos desfocados e alheios de quem não te é.

Thiago Mattos.

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segunda-feira, julho 03, 2006

Eu já sabia!

Não precisamos mais esperar: pelo menos para o Brasil, terminou a Copa do Mundo. Todos de volta ao trabalho e sem mais preocupações como “onde eu vou ver o próximo jogo?”. Amigo, não terá mais próximo jogo. Agora, só daqui a 4 anos.


Mas quer saber? Eu já sabia! Essa seleção tão papagaiada e cheia de glamour só podia acabar assim mesmo, foi bem feito. Pena que todo aquele nacionalismo idiota que enchia as janelas de bandeirinhas e as ruas de verde e amarelo não vai durar até outubro, quando teremos eleições. Seria um bom uso de um sentimento tão precário.

Por falar em eleições, neste mês começam as campanhas eleitorais. Tempo para ficarmos de olho em quem vem por aí. Os candidatos realmente deveriam disputar a eleição à outra coisa; nos governos estaduais é cada um pior que o outro. Cada vez mais os eleitores têm que escolher entre o ‘de jeito nenhum’ e o ‘deus me livre’, na dúvida acaba elegendo qualquer um que vê na TV.

Falando em TV, o presidente Lula acabou se decidindo pelo padrão japonês na TV digital, favorecendo as grandes corporações em troca de apoio na sua reeleição e contrariando um sem número de interesses, principalmente o interesse popular. A batalha por trás dessa novela que estava sendo a escolha entre um dos padrões para a TV digital foi acelerada pelo clima eleitoreiro e pelo ministro das Comunicações e ex-repórter da Globo, Hélio Costa.

Agora pouco, em ato inédito, Lula pediu ao Congresso a devolução de 225 processos de renovação de concessões de rádio e TV, ameaçados de rejeição pela Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados. A manobra, feita a pedido do deputado Jader Barbalho (PMDB-PA), impedirá que emissoras de políticos que estão com concessões vencidas sejam fechadas.

Mas isso tudo ainda é distante da real preocupação do povo, quando o Brasil perde a Copa poucos querem falar de outra coisa. Se a gente começar a opinar quem leva o caneco na disputa presidencial, sabe o que eu vou dizer em Outubro? Eu já sabia!


Thiago Mattos.

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quinta-feira, junho 01, 2006

Anular resolve?

O desencantamento político reforçado pelo escândalo do mensalão e a falta de boas opções eleitorais são as principais causas de uma campanha que vem ganhando cada vez mais consistência: a campanha pelo voto nulo. Potencializada pela internet, através de blogs e e-mails, e robustecida por conversas de boteco, a campanha pelo voto nulo já foi eleita o assunto do ano (depois da Copa do Mundo, é claro), de modo que a Justiça Eleitoral, temendo uma onda gigante de anulação de votos, prepara o lançamento de uma contra-campanha publicitária sobre a questão.

O voto nulo, segundo o TSE, é apenas registrado para fins de estatísticas e não é computado como voto válido, ou seja, não vai para nenhum candidato. Ao contrário do voto branco, que ratifica o resultado eleitoral seja ele qual for, o voto nulo atua no sentido de expressar a insatisfação do eleitor em relação ao pleito. Fruto do exercício da cidadania e da democracia, o ato de anular o voto, quando feito em massa, pode até mesmo anular uma eleição.

Entretanto, há um ponto que sinto falta em qualquer conversa que apele ao voto nulo: quando pomos um abismo entre os dois lados do processo, candidatos e eleitores. Será que a mediocridade dos candidatos (seja no nível federal, estadual ou municipal) e a desilusão política em si não estão diretamente ligados com o nosso descompromisso enquanto eleitores e, por que não ousar, cidadãos? Já que quem ocupa o poder é um reflexo direto de quem ocupa a sociedade, como exigiremos bons políticos se não formos bons eleitores?

Precisamos avançar na discussão de forma crítica à nossa própria postura social, à nossa interação com o meio onde vivemos. A discussão pela anulação do voto é mais do que válida mas enquanto jogarmos lixo no meio da rua para não tirar o emprego do gari ou enquanto não lembrarmos em quem votamos na última eleição, pouco adiantará o voto, seja ele qual for. Precisamos acordar desse delírio tolo de que o mundo é lá fora e não nos pertence. O mundo é nosso e, até que percebamos o compromisso inegável que temos com ele, nenhuma mudança distante afetará dentro de nós.

Thiago Mattos.

PS: Na foto acima, Elza Burati durante depoimento na CPI dos Bingos

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segunda-feira, abril 03, 2006

Não dizem nada mas falam de tudo

Lendo os jornais, a gente repara nas curiosas notícias que são repercutidas à exaustão e na divulgação improvável de alguns fatos ocorridos. Muitos são os exemplos. Podemos pensar nos 'passinhos infelizes' com os quais a deputada do PT comemorou a absolvição do seu colega e que já ocupam os noticiários há mais de uma semana.

Alguns fatos, mesmo que não tão importantes, ganham muito mais relevância em detrimento de outros. Se por um lado o ministro da Fazenda cai, por outro o Brasil vai para o espaço (trocadilho pertinente), ainda que de maneira imbecil, já que não desenvolve a sua própria tecnologia espacial e paga para pôr um astronauta em órbita e depende de outros países. O fato não é discutido mas pouco importa, todos fazem festa.


Há poucas semanas, um general do exército deu uma carteirada num aeroporto em S. Paulo e mandou voltar um avião da pista que estava prestes a decolar e, pra completar a estotinha-que-só-acontece-no-Brasil, a companhia aérea fez descer dois passageiros para que o ilustre general embarcasse com a sua senhora. Notícia que se tornou vazia já que, além de não acontecer nada com o milico, o Comando Militar do Leste, encabeçado pelo mesmo general, se reuniu para comemorar na semana passada os tantos anos do Golpe Militar de 64, exaltando o Golpe e pouco se falou nisso.


Os escândalos que governo e 'oposição' compartilham são claramente tratados de maneira diferenciada na sua importância e estamos em geral muito mais esclarecidos sobre o caixa 2 do PT, mas alguém vai mesmo saber como é que foi o episódio do Azeredo ou o desvio de recursos da Nossa Caixa no governo Alckmin em SP?


De qualquer forma, as notícias e reportagens mostram uma coisa: o que importa mesmo é falar. Dos meninos do tráfico (que servem muito mais a um apelo de audiência do que uma discussão sobre a questão) à nova dieta milagrosa, pouco se dá a devida importância e cuidado ao tema ao ser abordado. Todo o bombardeio de críticas políticas e o esgotamento e desgaste de fatos corriqueiros, posto que são tratados de modo vazio, revelam que não há mais o que falar: não dizem nada mas falam de tudo.

Thiago Mattos

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sexta-feira, março 03, 2006

Vai que você não entende...

Coisa pra falar é o que não falta. E não falta meeeesmo! É só abrir os jornais de qualquer cidadezinha do interior ou sair pelas ruas percebendo a história acontecendo. Gente pra falar também não; todos falam de tudo, impostando uma propriedade harvardiana, argumentos cheios de estatísticas bradados irrefutavelmente.

Bom, se tem coisa à beça pra ser falada e gente que nem doido pra falar, por que é que euzinho da silva vou ficar de fora? Nananinanão! Também quero a parte que me cabe desse latifúndio virtual chamado internet.

E por falar em internet (olha quem fala) é no mínimo admirável (e no máximo aterrorizante) essa mudança interativa por qual passamos nós, usuários dependentes e incuráveis. Mudança essa que já mostra claros sinais nas relações pessoais (se é que isso pode ser assim chamado) que acontecem virtualmente.

Se você tem fotolog, orkut, messenger, blog, site, email, o raio que o parta, você corre sérios riscos de ser vítima do desentendimento virtual. É isso mesmo! Conheço um monte que sofre desse mal diariamente, eu mesmo já terminei um namoro por causa disso e sei de pessoas que perderam o emprego, amigos, até dinheiro por causa do desentendimento virtual.

O camarada tá ali batendo um papinho inofensivo no messenger até que chega uma hora que ele não entende exatamente o que o outro quis dizer quando não disse nada e já parte pra agressão. E se a titular vê no orkut um recadinho da sua ex dizendo “Oi, gostoso! Já achei sua cueca que você deixou aqui ontem a noite”, na melhor das hipóteses o tempo já fecha. Uma foto perigosa que foi postada pode denunciar o que nunca houve. A resposta de uma informação que você pede por e-mail pode ter uma P.A. de interpretações diferentes, será que você vai escolher a certa?

Qualquer passo em falso pode ser uma boa isca para o desentendimento virtual. Desconfie principalmente de textos sobre o tema. Vai que você não entende...

Thiago Mattos

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