quarta-feira, março 10, 2010

Por que uma salada custa mais que um Big Mac?


Uma lei chamada The Farm Bill (algo como “a lei da fazenda”) está causando polêmica nos Estados Unidos. Por destinar bilhões de dólares a subsídios que vão para a criação de animais, o governo americano vem incentivando a produção de carne e derivados de leite – os mesmos produtos que contribuem para crescentes taxas de obesidade e doenças crônicas, conforme relata o site PCRM (Comitê dos Médicos para Medicina Responsável). Frutas e verduras recebem menos de um por cento de subsídios governamentais, alerta o site.

Na mesma direção vai o Economix, blog do New York Times, que inverte a pergunta da figura acima e questiona por que um Big Mac custa menos que uma salada. “Graças ao lobby, o Congresso escolhe subsidiar o tipo de comida que menos devíamos comer”. Com o auxílio de um gráfico, o blog ainda lembra que muitos alimentos saudáveis (como frutas e verduras) vem se tornando bem mais caros do que os que fazem mal à saúde.

Recentemente, a Organização Mundial de Comércio (OMC) autorizou o Brasil a retaliar os Estados Unidos com o reajuste de preços de uma série de produtos importados de lá – em alguns casos o aumento pode chegar a 100%. Isso por conta dos prejuízos causados à economia brasileira pelo subsídio que o governo dos EUA concede aos seus produtores de algodão. Mas se teremos peito para encarar mesmo essa disputa, aí já é outra questão.

Ao menos por aqui ainda é possível comer boas saladas e por um preço razoável. O lado ruim da notícia é que só queremos comer Big Macs.

Thiago Mattos

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terça-feira, janeiro 26, 2010

Herdeiro de uma herança maldita

A Obamamania acabou, clamam os analistas. A recente derrota democrata em Massachussetts parece ter marcado o fim de uma era que, como alguns insistem, durou um ano.

A suada reforma da saúde, que ainda não está encerrada, e a enorme ajuda aos bancos e à General Motors parecem ter ponteado esse o primeiro ano de governo, revelando desafios que vão tornando o lema de campanha cada vez mais distante. Em vez daquela afirmação pungente (“Sim, nós podemos” ), a pergunta que todos fazem agora é “Podemos mesmo?”

Apesar de tudo, ainda é cedo para uma avaliação mais precisa de um governo que já chegou causando frisson e, ao deparar-se com obstáculos quase intransponíveis, causa o mesmo alvoroço – seja entre críticos ou partidários.

O governo Obama, pelo menos por enquanto, é um herdeiro de uma herança maldita. Mas é bom que não se esqueça: pode – e deve – ser muito mais que isso.

Thiago Mattos.

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quinta-feira, agosto 20, 2009

Quantos minutos você trabalha para poder comprar um Big Mac?

O índice Big Mac compara o real poder de compra de várias moedas do mundo. Com base nele, a revista The Economist divulgou uma tabela (baseada em dados do banco suíço UBS) mostrando o quanto é preciso trabalhar em diferentes cidades para poder comprar o mesmo sanduíche.

"O tamanho do seu salário pode ser importante, mas o poder que ele tem também é", diz a revista. De acordo com os dados, é possível comprar um Big Mac com apenas 12 minutos de trabalho em cidades como Chicago, Tokyo e Toronto.

Já em lugares como Cidade do México, Jakarta e Naiorobi, é necessário trabalhar mais de duas horas para se obter o mesmo valor. Um pouco acima da média global de 37, um Big Mac custa 40 minutos em São Paulo e 51 minutos no Rio.


Outro artigo da mesma revista, questiona a criação de impostos sobre fast food, que está em pauta nos EUA. Os argumentos para a implantação do novo imposto são os mesmo usados na taxação do álcool, cigarro e jogo: os custos sociais de cada um.

Atualmente, um terço dos estadunidenses são obesos e as despesas médicas com a obesidade ultrapassam os 200 bilhões de dólares por ano. Uma conta ainda mais cara do que a gasta com o tabagismo.

Mas, de acordo com a matéria, uma taxação sobre junk food pouco afetaria o consumo de quem é realmente viciado. Mesmo assim, poder comprar um Big Mac por tão pouco nos EUA é um convite e tanto a quem não tem muito tempo para comer, ou seria para vender?

Thiago Mattos.

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segunda-feira, dezembro 15, 2008

Como encerrar um mandato (ou desviar de sapatos)



Emblemática foi a despedida do Presidente George W. Bush no Iraque.

Há menos de um mês para terminar seu mandato, Bush resolveu fazer uma visita surpresa ao Iraque - a quarta desde a invasão de 2003.

Durante uma coletiva de imprensa ao lado do Primeiro Ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, Bush foi surpreendido por um repórter de TV que lhe atirou seus sapatos - hábito considerado extremamente ofensivo na cultura árabe - gritando em árabe:

"Isto é um beijo de adeus do povo iraquiano, cachorro! Isto é pelas viúvas, pelos órfãos e por aqueles que foram mortos no Iraque".

Infelizmente, Bush conseguiu desviar a tempo e não foi atingido. O repórter foi detido pela lerda segurança, e Bush ainda tirou um sarro: "tudo o que posso dizer é que é um tamanho 42".

Thiago Mattos.

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quinta-feira, setembro 11, 2008

VII d.11/09

Há sete anos, o dia 11 de Setembro entraria para o vocabulário internacional como um marco que dividiria tudo o que aconteceu em antes e depois dele. Estamos no ano VII d.11/09 e a História continua.

A dimensão das mudanças causadas por esta data ainda não puderam ser suficientemente assimiladas, mas todos nós sabemos que algo incrivelmente assustador e terrível aconteceu em Nova York há sete anos atrás envolvendo dois prédios, dois aviões e quase 3 mil pessoas - vimos pela TV! Já não podemos dizer o mesmo sobre o ataque ao Pentágono. Alguém já ouviu falar de Shanksville?

De qualquer forma, naquele dia o mundo estava mudando para nunca mais ser o mesmo e nos foi relembrado - do jeito mais cruel - qual o valor de uma vida comparado ao de uma causa ou de uma idéia.

Muitas perguntas ainda restam. Ficamos com três:

Como a CIA - a tão aclamada "maior inteligência do mundo" - que tem células espalhadas pelos quatro cantos, não consegue achar Osama Bin Laden, e nem ao menos os figurões da Al-Qaeda, se até um jornalista espanhol de bons contatos conseguiu?

Como puderam ser ignoradas as suspeitas do FBI com relação a um assunto tão sério quanto o ataque das Torres Gêmeas do World Trade Centre? A desculpa de que sempre recebem por lá ameaças de todos os tipos e não podem dar conta de todas é no mínimo ingênua. Sabemos que agentes do governo, policiais e políticos não fazem o tipo.

Já que existem regras que não podem ser quebradas de maneira alguma por um avião no espaço aéreo dos EUA, sob pena de ser interceptado e abatido por caças da Forca Aérea em questão de segundos, como explicar os atrasos nos avisos das Bases Aéreas? Como simplesmente cruzaram os braços?

Entre as tantas teorias extra-oficiais, as que mais chamam a atenção é a de que Bin Laden seja um ex-agente da CIA e a de que as torres do WTC, na verdade, teriam caído por uma implosão e não pelo impacto dos Boeings 767 e 757. Seja como for, a verdade um dia surgirá.

O silêncio do presidente George W. Bush durante as cerimônias de aniversário da tragédia ano após ano soa sempre como a metáfora de um silêncio incômodo. Mas, com todas as respostas que estão sendo escondidas, muitas perguntas não conseguem calar.

Thiago Mattos.

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terça-feira, maio 13, 2008

"Pede pra sair! Pede pra sair!"

Barack Obama é o primeiro negro com chances reais de se tornar um presidente dos EUA.

Apesar da teimosia de Hillary Clinton – que insiste em não deixar a disputa pela indicação do Partido Democrata, mesmo quando tudo lhe diz o contrário – o senador de Illinois deve ser o candidato escolhido para representar o partido nas eleições de Novembro.

Para alcançar a nomeação democrata, seria necessário conquistar 2.025 delegados. Como nenhum dos candidatos conseguirá atingir tal número até Agosto (mês da convenção do partido em Denver), serão os superdelegados quem decidirão a nomeação. Eles são as figuras de mais destaque no partido (membros do Congresso, governadores, líderes de relevo) e as recentes contagens já indicam a liderança de Obama, ajudado pelas deserções no lado de Hillary.

Certamente não deve ser fácil para a senadora de Nova York simplesmente desistir – ela tirou de seu próprio bolso uma quantia de 11 milhões de dólares para financiar sua campanha. De pouco adiantou também ter Bill Clinton ao seu lado; ao contrário, pode tê-la atrapalhado.

Já Barack Obama tem se mostrado dono de uma singela desenvoltura política, superando episódios como o fogo-amigo disparado pelo pastor Jeremiah Wright (que reacendeu a chama da discórdia racial e quase minou as chances do pré-candidato) e saindo ileso das diversas vezes em que emissoras de TV “confundiram” seu nome, trocando “Obama” por “Osama”.

Se eleito, Obama pode significar para os EUA algo similar ao que JFK representou na década de 60 – seja no frescor da novidade, seja no inegável carisma de líder, seja na esperança vinda do povo.

Mas ainda há uma longa estrada pela frente. Correndo tudo como o esperado, seu próximo desafio será o confronto com John McCain, que vem tirando proveito em sua posição de candidato já escolhido pelo Partido Republicano, enquanto os pré-candidatos democratas perdem tempo digladiando e enfraquecendo o partido.

Certamente uma das perguntas que mais convém é por que Hillary não desiste. Inegavelmente, talvez fosse mesmo hora para os EUA terem uma mulher no poder. Mas, ao que tudo indica, não “essa” mulher. Hillary não convenceu, e sairá da disputa deixando uma má impressão da sua personalidade - já devia ter pedido pra sair.

Da mesma forma, há menos de 5 décadas atrás, negros não podiam votar no sul dos EUA. Hoje, apesar das (ainda) enormes diferenças, pela primeira vez na história um negro pode fazer a diferença e ajudar a unir os desunidos Estados Unidos. E fica a pergunta que também convém: por que não Barack Obama?

Thiago Mattos.

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quarta-feira, abril 30, 2008

Innocent Project

27 anos após ter sido preso acusado de violentar e estrangular sua noiva, James Lee Woodward finalmente foi inocentado graças às provas obtidas através de exames de DNA, e graças também a Innocent Project – organização sediada em Nova York e especializada nesse tipo de caso.

O cidadão texano de 55 anos havia esgotado todas as possibilidades de recorrer. Em 1981, a Corte de Dallas o condenou baseado nas declarações de duas testemunhas. Agora, 27 anos depois, duas provas distintas de DNA puderam enfim provar a inocência que ele clamava desde o primeiro dia.

Woodward é a típica vítima dos erros judiciais (e não somente) nos EUA: é negro. Essa não foi a primeira vez que este tipo de situação ocorreu. É a 18ª somente em Dallas. E o que chama mesmo a atenção desta vez é o longo tempo de espera – 27 anos – o maior tempo em que um prisoneiro erroneamente condenado já passou. Um tempo irrecuperável.

Em outro caso semelhante, Thomas McGowan foi recentemente libertado também com base em exames de DNA, após passar 23 anos na prisão.

Que o sistema prisional do Texas (especialmente) está com problemas sérios, isto é fato. Em todo o estado, mais de 30 pessoas condenadas com o mesmo perfil já foram absolvidas com base no mesmo tipo de provas.

O advento do DNA como prova tem ajudado enormemente na resolução de casos judiciais complicados, mas não podemos fechar os olhos para a questão racial presente em cada uma delas. Errar tantas vezes da mesma forma não pode ser uma infeliz coincidência. E não é.

A notícia do erro judicial vem do Texas, mas todos sabemos que poderia muito bem ter vindo do Brasil. Principalmente por não termos ainda nenhum Innocent Project. Por enquanto, nosso único projeto tem sido matar ou prender.

Thiago Mattos.

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quinta-feira, abril 19, 2007

A cultura da violência (da Virgínia ao Catumbi)

Quarta-feira, meio-dia. Um helicóptero preto da Polícia Civil dá rasantes no morro do Pavão-Pavãozinho, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Os barulhos da hélice me trazem o pensamento para a possibilidade do início de mais um tiroteio no morro. Concentrar-se em escrever um texto é difícil. Espero o dia seguinte.

No cemitério do Catumbi, os velórios haviam sido suspensos. Velar um morto por lá ainda pode matar. Pois mesmo que esse pedaço do Rio de Janeiro não seja Zona Sul, Centro ou Zona Norte, é certo um lugar onde não há muita paz por aqui.

Nosso cotidiano carioca que mistura alegria, suor e tragédia quase não pode mais se espantar com a cor do sangue nem com a razão porque ele jorra dos corpos de nossos mortos.

De manhã, uma manifestação pela paz colocou 1.300 rosas num ponto da praia de Copacabana para nos lembrar quantos já morreram nesta guerra financiada pela indústria da violência tupiniquim. As rosas e o sangue têm a mesma cor, mas isso pouco importa para quem morre.

Pelo Brasil adentro brotam tantos exemplos de tragédias cotidianas que um massacre como o de Virginia Tech não pode mais nos chocar. No máximo, um pequeno susto.

Apesar da diferença em como se mata lá e aqui, chama a atenção no caso da Virgínia a frieza de um assassinato em massa onde os que ficaram não podem dirigir a raiva a alguém, já que o único suspeito está morto. Haveria ainda alguma justiça a ser feita? Como?

Mesmo que surjam vídeos, fotos ou cartas, nunca saberemos a ‘verdade verdadeira’ de uma tragédia que massacra os espectadores do mundo inteiro contra o mais novo inimigo público dos EUA: um coreano, ainda que do sul da Coréia.

Apesar de todo o sangue derramado e da surpresa em relação ao que nos lembra o que outra hora se chamou Columbine – ou tantos outros nomes de escolas nos EUA assoladas pelo mesmo mal – sabemos como poucos sobre assassinatos em massa, sejam eles cometidos por loucos ou não, com ou sem uniforme, legitimados ou não pelo aparelho repressivo do Estado.

Não precisamos de um assassino no cinema, nem de uma menina que mata os pais e tem nome alemão. Pouco precisamos de psicopatas. Nossas instituições cuidam para que essa indústria da violência siga matando em endereço certo aos nossos próprios inimigos públicos: nossos pobres.

A tragédia de mortes banalizadas que choca o mundo e é para nós uma dura realidade ainda custará muitas rosas.

Thiago Mattos.

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quinta-feira, abril 12, 2007

Ninguém é racista no Brasil

Existe uma sutil diferença entre racismo nos EUA e o no Brasil: lá eles encaram o problema de frente, discutem-no e, conseqüentemente, os direitos dos negros são mais resguardados. O recente episódio Don Imus (onde um conceituado apresentador de rádio da CBS fez um comentário racista sobre um time universitário de basquete feminino, sendo execrado e boicotado por toda aquela sociedade) mostrou bem isso.

Aqui no Brasil, não há racistas – ninguém admite o contrário – e fica a (falsa) impressão de que, portanto, não há racismo no Brasil. Ledo engano. O Brasil é o país mais racista do mundo e a insistência amplamente divulgada de que nesta terra não há racismo é cada vez mais preocupante. Atua a favor desse horrendo ideal de igualdade para os desiguais a mídia corporativista, que precisa vender seus produtos e arrebanhar mais consumidores.

Dando início ao debate sobre o tema, publico aqui um texto do Veríssimo que saiu n’O Globo, no dia 1 de abril deste ano. Mesmo para quem já o leu, vale a pena ler de novo.

Thiago Mattos.

RACISMOS
(Luiz Fernando Veríssimo)


Preconceito racial e discriminação racial são coisas diferentes.

O preconceito é um sentimento, fruto de condicionamento cultural ou de uma deformação mental, mas sempre uma coisa pessoal, quase sempre incorrigível. Não se legisla sobre sentimentos, não se muda um hábito de pensamento ou uma convicção herdada por decreto.

Já a discriminação racial é o preconceito determinando atitudes, políticas, oportunidades e direitos, o convívio social e o econômico. Não se pode coagir ninguém a gostar de quem não gosta, mas qualquer sociedade democrática, para não desmentir o nome, deve combater a discriminação por todos os meios – inclusive a coação.

Não concordo com quem diz que uma política de cotas para negros no estudo superior é discriminação ao contrário, ou uma forma de paternalismo condescendente tão aviltante quanto a discriminação.

É coação, certo, mas para tentar corrigir um dos desequilíbrios que persistem na sociedade brasileira, o que reflete na educação a desigualdade de oportunidades de brancos e negros em todos os setores, mal disfarçada pela velha conversa da harmonia racial tão nossa. As cotas seriam irrealistas? Melhor igualdade artificial do que igualdade nenhuma.

Agora mesmo caíram em cima de quem disse – numa frase obviamente arrancada do contexto – que racismo de negro contra branco é justificável.

Nenhum racismo é justificável, mas o ressentimento dos negros é. Construiu-se durante todos os anos em que a última nação do mundo a acabar com a escravatura continuou na prática o que tinha abolido no papel. Não se esperava que o preconceito acabasse com o decreto da abolição, mas mais de 100 anos deveriam ter sido mais que suficientes para que a discriminação diminuísse.

Não diminuiu.

Igualar racismo de negro com racismo de branco não resiste a um teste elementar. O negro pode dizer – distinguindo com nitidez preconceito de discriminação – “Não precisa me amar, só me dê meus direitos”. Qual a frase mais próxima disso que um branco poderia dizer, sem provocar risos? “Não precisa me amar, só tenha paciência” “Me ame, apesar de tudo”? Pouco convincente.

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quinta-feira, março 15, 2007

Cachaça versus Whisky

De vez em quando, escrevo uns artigos para um site bem legal dos EUA, thesequitur.com. Acabaram de publicar por lá um artigo meu sobre o tour do presidente norte-americano George W. Bush pela América Latina e sua parada estratégica no Brasil, que deu direito a conversas etílicas, samba, protesto de mulher pelada e revolta em São Paulo.
De qualquer forma, o interesse dos gringos no Brasil aumenta cada vez mais. Uma vez ouvi da boca do próprio Bill Clinton, numa palestra para estudantes da qual participei em Los Angeles, que os americanos deviam olhar para o exemplo do Brasil na questão do álcool, um combustível limpo, dizia ele - A Califórnia é o estado americano onde o ar é o mais poluído. A preocupação deles com o meio ambiente começava a virar uma coisa cool.
Pois bem, Bush (ex-alcólatra) passou por aqui e viu como se tira o etanol da cana - lá eles fazem o mesmo processo através do milho - mas pouco se avançou nas negociações concretas. Todo o alarde em cima de sua visita relâmpago, todo o absurdo do que foi semana passada aqui foi descrita no artigo publicado por lá.
Enfim, para quem quiser conferir o artigo, é só clicar aqui.

Thiago Mattos.

PS: Essas e muito mais fotos da visita de Bush no Brasil podem ser encontradas em http://knuttz.net/hosted_pages/George-W-Bush-in-Brazil-20070313

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quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Quarta-feira de Cinzas

O fim do carnaval anuncia para nós, brasileiros, o começo do ano. Isso todo mundo embaixo do Equador já sabe. Também se sabe que num país carnavalesco por excelência como o nosso, o carnaval não acaba na Quarta-Feira de Cinzas. Ele dá uma pausa.

Que a Beija-Flor de Nilópolis ganharia o desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro desse ano, ainda mais depois de aparecer dias antes num programa de TV líder de audiência, todo mundo também já sabia. Os vencedores dessa festa que a cada ano que passa fica mais industrial são muito previsíveis. Posso até dizer que(m) ganhará ano que vem.


Que já era hora de Tony Blair anunciar uma retirada, ainda que parcial, das tropas britânicas no Iraque, só um outro presidente maluco ainda não percebeu. Que os pilotos norte-americanos envolvidos no acidente aéreo do ano passado no Brasil têm culpa direta no caso (já admitiram inclusive ter desligado o radar), não é mais novidade. Pouca coisa é difícil de presumir nesse mundo óbvio e caótico.

Falta agora sabermos quais serão as próximas manchetes que engoliremos seco daqui pra frente, quais as novas que esse ano já velho tem para nos oferecer. Meteoros caindo sobre a Terra? Novas vacinas? Mais escândalos políticos? Assassinatos brutais? A visita de um alienígena? Nada mais pode me assustar; eu acredito em tudo.


Thiago Mattos.

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quinta-feira, outubro 05, 2006

Acode, acode!!

Mesmo que o Yom Kippur e o Ramadan façam efeito em quem fez e não fez o jejum, o mundo ainda precisará de muito defumador para espantar os fantasmas que andam pelos quatros cantos, junto com os demônios de cada religião. Pra muita gente, o ano acabou de começar e é tempo de uma purificação.

Aqui na terra do Tio Sam, as escolas do interior continuam dando o que falar. Semana passada, Colorado, Pennsylvania e Wisconsin tiveram problemas sérios com crianças mortas de uma forma brutal por assassinos de última hora. Mas agora não é hora de falar disso.

Deu uma vontade muito grande de votar. Confesso, tá dando medo do Sr. Alckmin ganhar. Minha caixa de e-mails tem andado cheia de propagandas tentando me convencer por que devo ou não votar em Lula, explicando por A + B que Geraldo Alckmin é tudo de ruim que há num candidato etc.

Sei que não podemos mais personificar o poder de um país nas mãos de um presidente, temos que dar vida às iniciativas não-governamentais (nao estou falando de ONG, Deus me livre) e ver quem estão por trás de um projeto político. Além do mais, já pensaram no bem que nos fez essa desmistificação em torno da imagem imaculada de Lula? Que bom que não acreditam mais nele, isso pode fazer bem demais ao país que já está com um olho no padre e o outro no papa que só diz besteiras.

Todos me perguntam: vem cá, faz realmente alguma diferença quem vai ganhar? Andei pensando, pensando e cheguei à seguinte conclusão: faz sim. Lembrei do Brasil antes e depois de Lula, comecei a pensar nas merdas que começaram a aparecer. Engraçado, antes tudo era mais cheiroso, ao menos não fedia tanto. Antes, corrupção era um coisa que a gente ouvia falar distante, sabia que existia mas no final não dava em nada. Comecei a pensar que até que é bom que a gente fale mal do homem, critique, mas quando pensei no Brasil tendo o Sr. Alckmin como presidente, confesso mais uma vez, deu medo.

E hoje nem vou falar da situação da minha querida cidade do Rio de Janeiro, que dá vontade de sair gritando pára tudo, pára, pára!!! Como deixaram essas pessoas se candidatar, Deus do céu? Então, como disse um amigo, rezemos, oremos, clamemos pelo perdão supremo. Yom Kippur e Ramadan não podiam vir em melhor hora.

Thiago Mattos.

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domingo, julho 30, 2006

Desculpas para tudo

A curiosa moção recentemente aprovada na Câmara dos Representantes dos EUA, pedindo a criação de uma força-tarefa na Tríplice Fronteira (Brasil-Argentina-Paraguai) que “assista e combata a proliferação das organizações terroristas”, causou por aqui uma certa surpresa. Apesar de todas as evidências dizerem que não, o projeto de autoria da republicana Ileana Ros-Lehtinen, da Flórida, especula que haja ali um possível braço da Al Qaeda e que terroristas estariam vindo para o Brasil e indo daqui até o México, tentando assim entrar em american soil.

Desde então, diversos congressistas que discordam dos termos do pedido se manifestaram a favor do governo brasileiro, ressaltando a “ativa participação e liderança” do Brasil no programa de segurança do grupo 3+1, formado pelos três países da região mais os EUA. O ponto nevrálgico é que a moção sugere uma militarização da região sob a desculpa da luta contra o terrorismo, conceito ainda vago e impreciso.

O presidente venezuelano Hugo Chavéz já cansou de declarar suas intenções de transformar a Venezuela numa potência militar. Há algumas semanas, a Guiana anunciou a participação de uma força militar americana para vigiar sua parte da floresta amazônica. Há também presença militar dos EUA até Dezembro deste ano em território paraguaio para “exercícios militares”.

Apesar de problemas localizados na Colômbia com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), a América do Sul é um dos poucos pontos ainda pacíficos do planeta; as tentativas de militarização, ao contrário do que se pense, não trarão qualquer garantia de paz para a região. Entretanto, notamos que as investidas na direção contrária estão cada vez mais fortes.

A região da Tríplice Fronteira, vale lembrar, tem uma importância estratégica, já que ali está situado o aqüífero Guarani, a maior reserva de água doce do subsolo americano. Já não bastam as constantes ameaças de internacionalização da Amazônia, isso sim um terror, qualquer passo dado na direção de uma intervenção que ameace a soberania desses países deve ser tratado com respeito e cuidado.
Thiago Mattos.

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sexta-feira, abril 28, 2006

Quem é a América?

As freqüentes manifestações e protestos (até agora já foram mais de 50 por todos os estados americanos) contra a nova lei da imigração que está empacada no Senado demonstram a importância do tema que pode interferir diretamente na vida de pelo menos 11 milhões de pessoas que vivem nos EUA, na maioria latino-americanos, na maioria mexicanos.

Em Dezembro, os republicanos conseguiram passar um projeto de lei pela Câmara dos Representantes (onde votam os deputados) que dizia, entre otras cositas más, que todos os imigrantes ilegais devem ser deportados e as pessoas que os empregam devem sofrer punição. Além disso, também foi garantido pelos deputados o financiamento de uma espécie de muro de 1116 km na fronteira com o México. É a nova caça às bruxas da América.

Na contramão de alguns ‘cidadãos’ que querem se ver livres de outros não-cidadãos que estão ali para fazer o serviço sujo e girar as engrenagens da maior economia do mundo, está a Liga dos Cidadãos da América Latina (LULAC) que prepara uma ação punitiva aos produtos da cervejaria Miller, para castigá-la e envergonhá-la pelo apoio dado ao republicano James Sensenbrenner, de Wisconsin, autor do projeto de lei que causa tanta revolta entre os imigrantes.

A grande verdade é que os imigrantes que trabalham no país, legais ou ilegais, são os braços e as pernas dos EUA, que sem eles pararia. Pergunta: qual dos White Anglo Saxon Protestant construiriam as casas, fariam o serviço doméstico, dirigiriam os táxis, cortariam as gramas, colheriam tomates nas plantações, acabariam servindo no exército e iriam para o Iraque levando a ‘democracia’, enfim, quem faria o trabalho pesado e sujo? É claro que isso é uma generalização mas tirem os ilegais e vejam como seria. Um filme já tentou mostrar isso, mas quem sabe logo poderemos também visualizar na prática.

A nova lei, criminaliza não apenas os imigrantes não autorizados, que vendem sua mão de obra por um preço que poucos venderiam, mas também aqueles que lhes ofereceram ajuda humanitária. Dá para notar a fúria contaminada pelo medo anti-terrorista que os políticos vem usando para aumentar mais a ainda o medo do outsider. Com a consolidação da lei, ser imigrante não será apenas uma ofensa cível, será crime. E todos nós sabemos como são tratados os criminosos, não é mesmo?

O jornalista Juan Williams, que já escreveu bastante sobre os movimentos civis nos EUA na metade do século passado, tem alertado sobre a importância que os protestos contra a lei da imigração vem ganhando, reunindo cada vez mais um número maior de pessoas e importantes segmentos da sociedade; os protestos estão ganhando o mesmo impacto transformador.

Se a situação não mudar, os manifestantes prometem fazer uma paralisação no primeiro de maio. Desta forma, mostrarão a sua importância e sua existência, já que muitos ‘fingem que não existem’. De uma maneira ou outra, algo de bom precisa sair de tudo isso. Depois de livros que viraram best seller culpando os imigrantes pelos problemas do país e publicações que defendiam o fechamento do país, já estava mais que na hora do tema entrar no debate público e questionar o imenso clamor antiimigrante que vem tomando conta de país que se formou basicamente através da imigração e vem sendo habitado e desenvolvido, desde o desembarque dos peregrinos, graças a uma diversidade de culturas vital para a sobrevivência do país.

Thiago Mattos.

PS: O texto acima também foi escrito em inglês.

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