quarta-feira, abril 08, 2009

Desafio Gelado

Número brasileiros imigrando para o Canadá não para de crescer e a internet tem se mostrado uma aliada cada vez mais presente no processo.

English version - click here (thesequitur.com)


Todos os anos, várias éspecies deixam seu habitat natural e migram em busca da sobrevivência. Como peixes, pássaros e outros animais, o bicho-homem também se desloca pelo planeta com a mesma desenvoltura.

É assim que atualmente centenas de brasileiros deixam seu país tropical rumo às terras geladas do Canadá, buscando melhores condições de vida. Organizam-se através de blogs, comunidades do Orkut e grupos de e-mail, onde discutem prós e contras do processo de imigração, trocando figurinhas sobre a vida como ela realmente é por lá, no frio do Canadá.

O país é um dos que mais incentivam trabalhadores qualificados dispostos a aprender uma nova língua (francês ou inglês) e um outro estilo de vida, pautado por um inverno rigoroso que pode chegar a temperaturas negativas na mesma proporção que chegam as positivas no Brasil.

Imigrantes de diversos países já se tornaram cidadãos canadenses – correspondendo a 18% da população, em uma das maiores proporções já medidas (Censo de 2001). Cinquenta mil novos imigrantes estão sendo esperados este ano na província francófona do Quebec, uma das que mais recebem brasileiros.

Diferentemente do que ocorre em outros países como os EUA, onde o green card é obtido através de uma loteria e a imigração é delicadamente tratada como um problema, no Canadá o processo é ágil e transparente.

Pontua critérios como idade, formação acadêmica e experiência profissional, conforme informa o Ministério da Imigração e das Comunidades Culturais do Quebec (MICC): “É possível imigrar para Quebec com um visto de Residência Permanente, que permite viver e trabalhar legalmente, com a quase totalidade dos direitos de todos os cidadãos canadenses”.

Tal oferta já fisgou cerca de 10 mil brasileiros durante os últimos dez anos; o Brasil é um dos cinco países das Américas que mais contam com residentes permanentes no Canadá. Situada na província de Ontário, parte anglófona do país, Toronto se destaca como a cidade que mais recebe imigrantes.
É onde mora Gean Oliveira, que imigrou em 2003 buscando uma melhor qualidade de vida. Gean, assim como muitos brasileiros residentes no Canadá, mantém um blog, onde compartilha sua experiência, auxiliando tanto os que estão indo quanto os que já estão lá.

“Muitos querem uma receita pronta para vir morar no Canadá e esquecem de fazer o dever de casa que é pesquisar”, adverte ele. Nesse sentido, a Internet tem sido uma grande aliada. É uma maneira que os imigrantes têm de conseguir dar e ter apoio entre si.

“Passei diversos meses na internet analisando o que as pessoas falavam e faziam”, confessa Ingrid Lins, que imigra para Montreal em 2011 com seu marido. “Parecia um reality show. Acompanhar os blogs era emocionante, porque eles falavam de coisas que provavelmente eu passaria.”

Mas é preciso selecionar o que se lê por aí, de acordo com Soraia Tandel, uma brasileira que foi para o Canadá fazer um doutorado em 1994 e não voltou mais. Hoje, Soraia trabalha para o governo de Quebec, no MICC, e viaja pela América Latina promovendo palestras e orientando os pretendentes a novos imigrantes.

“Acho que tem uma parte válida desses blogs, eles ajudam muito com dicas sobre habitação, integração. Quem já passou pela experiência vai abrindo um pouco o caminho para o novo imigrante, mas também têm muitas informações que não procedem, é preciso peneirar.”

Seja como for, o fato é que a Internet desempenha hoje um papel fundamental no processo, facilitando o contato com a família e os amigos e simplificando a busca pela informação necessária a quem vai imigrar. Tais ferramentas eram impensáveis para quem já passou pelo mesmo desafio há menos de uma década.

Assim, a aventura de ir viver em outro país ganha um ar mais racional e menos aventureiro sem, é claro, deixar de ser um desafio. De qualquer forma, está aí uma boa oportunidade que, até mesmo por já contar com tantos brasileiros, tem tudo para dar samba.

Thiago Mattos.

Marcadores: ,

sexta-feira, abril 28, 2006

Quem é a América?

As freqüentes manifestações e protestos (até agora já foram mais de 50 por todos os estados americanos) contra a nova lei da imigração que está empacada no Senado demonstram a importância do tema que pode interferir diretamente na vida de pelo menos 11 milhões de pessoas que vivem nos EUA, na maioria latino-americanos, na maioria mexicanos.

Em Dezembro, os republicanos conseguiram passar um projeto de lei pela Câmara dos Representantes (onde votam os deputados) que dizia, entre otras cositas más, que todos os imigrantes ilegais devem ser deportados e as pessoas que os empregam devem sofrer punição. Além disso, também foi garantido pelos deputados o financiamento de uma espécie de muro de 1116 km na fronteira com o México. É a nova caça às bruxas da América.

Na contramão de alguns ‘cidadãos’ que querem se ver livres de outros não-cidadãos que estão ali para fazer o serviço sujo e girar as engrenagens da maior economia do mundo, está a Liga dos Cidadãos da América Latina (LULAC) que prepara uma ação punitiva aos produtos da cervejaria Miller, para castigá-la e envergonhá-la pelo apoio dado ao republicano James Sensenbrenner, de Wisconsin, autor do projeto de lei que causa tanta revolta entre os imigrantes.

A grande verdade é que os imigrantes que trabalham no país, legais ou ilegais, são os braços e as pernas dos EUA, que sem eles pararia. Pergunta: qual dos White Anglo Saxon Protestant construiriam as casas, fariam o serviço doméstico, dirigiriam os táxis, cortariam as gramas, colheriam tomates nas plantações, acabariam servindo no exército e iriam para o Iraque levando a ‘democracia’, enfim, quem faria o trabalho pesado e sujo? É claro que isso é uma generalização mas tirem os ilegais e vejam como seria. Um filme já tentou mostrar isso, mas quem sabe logo poderemos também visualizar na prática.

A nova lei, criminaliza não apenas os imigrantes não autorizados, que vendem sua mão de obra por um preço que poucos venderiam, mas também aqueles que lhes ofereceram ajuda humanitária. Dá para notar a fúria contaminada pelo medo anti-terrorista que os políticos vem usando para aumentar mais a ainda o medo do outsider. Com a consolidação da lei, ser imigrante não será apenas uma ofensa cível, será crime. E todos nós sabemos como são tratados os criminosos, não é mesmo?

O jornalista Juan Williams, que já escreveu bastante sobre os movimentos civis nos EUA na metade do século passado, tem alertado sobre a importância que os protestos contra a lei da imigração vem ganhando, reunindo cada vez mais um número maior de pessoas e importantes segmentos da sociedade; os protestos estão ganhando o mesmo impacto transformador.

Se a situação não mudar, os manifestantes prometem fazer uma paralisação no primeiro de maio. Desta forma, mostrarão a sua importância e sua existência, já que muitos ‘fingem que não existem’. De uma maneira ou outra, algo de bom precisa sair de tudo isso. Depois de livros que viraram best seller culpando os imigrantes pelos problemas do país e publicações que defendiam o fechamento do país, já estava mais que na hora do tema entrar no debate público e questionar o imenso clamor antiimigrante que vem tomando conta de país que se formou basicamente através da imigração e vem sendo habitado e desenvolvido, desde o desembarque dos peregrinos, graças a uma diversidade de culturas vital para a sobrevivência do país.

Thiago Mattos.

PS: O texto acima também foi escrito em inglês.

Marcadores: , , ,