quinta-feira, março 15, 2007

Cachaça versus Whisky

De vez em quando, escrevo uns artigos para um site bem legal dos EUA, thesequitur.com. Acabaram de publicar por lá um artigo meu sobre o tour do presidente norte-americano George W. Bush pela América Latina e sua parada estratégica no Brasil, que deu direito a conversas etílicas, samba, protesto de mulher pelada e revolta em São Paulo.
De qualquer forma, o interesse dos gringos no Brasil aumenta cada vez mais. Uma vez ouvi da boca do próprio Bill Clinton, numa palestra para estudantes da qual participei em Los Angeles, que os americanos deviam olhar para o exemplo do Brasil na questão do álcool, um combustível limpo, dizia ele - A Califórnia é o estado americano onde o ar é o mais poluído. A preocupação deles com o meio ambiente começava a virar uma coisa cool.
Pois bem, Bush (ex-alcólatra) passou por aqui e viu como se tira o etanol da cana - lá eles fazem o mesmo processo através do milho - mas pouco se avançou nas negociações concretas. Todo o alarde em cima de sua visita relâmpago, todo o absurdo do que foi semana passada aqui foi descrita no artigo publicado por lá.
Enfim, para quem quiser conferir o artigo, é só clicar aqui.

Thiago Mattos.

PS: Essas e muito mais fotos da visita de Bush no Brasil podem ser encontradas em http://knuttz.net/hosted_pages/George-W-Bush-in-Brazil-20070313

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terça-feira, junho 06, 2006

Cansados de esperar

Essa semana completa um ano que a palavra ‘mensalão’ passou a fazer parte do vocabulário da política nacional brasileira. Há exatos 12 meses, o deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) dava uma entrevista à Folha de S. Paulo declarando que o então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, pagava R$30 mil mensais a deputados de Brasília em troca de apoio ao governo. Dias depois da entrevista, Jefferson vai depor na Câmara e dispara uma metralhadora verborrágica de acusações para todos os lados do Congresso, poupando só o presidente.

Seu depoimento transmitido ao vivo pela TV se tornaria mais um espetáculo de entretenimento do que uma sessão do Conselho de Ética da Câmara e ficaria marcado na história política do país como o primeiro de muitos outros que virariam diversão das nossas tardes. Mais uma vez a podridão da política era destampada in loco e assim começava a crise política na segunda metade do governo Lula.

Entre as muitas revelações de Jefferson (que quase virou herói da pátria, não fosse sua própria confissão de envolvimento no esquema), havia a de que o dinheiro do ‘mensalão’ vinha de estatais e de empresas privadas e chegava a Brasília em malas para ser distribuído a parlamentares com a ajuda de um publicitário “carequinha”; suas acusações solaparam presidentes de partidos e quadros do alto escalão do governo. Hoje, dos 19 deputados suspeitos de envolvimento no esquema, 11 foram absolvidos, 1 aguarda julgamento, 4 renunciaram para não perder o mandato e 3 foram cassados, entre os quais, o ilustre deputado citado.

Com a crise, o Partido dos Trabalhadores, que antes de alcançar o poder passava incólume pela seara da corrupção, foi seriamente comprometido e maculado pelas denúncias, que aos poucos iam respingando no presidente. Os homens fortes do governo foram caindo um a um, porém o presidente-operário, que veio do povo e ali estava por ele, vem resistindo às mais de 20 tentativas de impeachment, à denúncias-crime da OAB, do Procurador-geral da República, do que vier. Especialistas políticos são procurados aos montes para explicar o “fenômeno” de um presidente que quanto mais apanha mais se fortalece. A um mês do início oficial da campanha política, pesquisas mostram que o presidente Lula é disparado o vencedor das eleições, caso fossem hoje.

Passou-se um ano e muitos estavam se perguntando até quando o povo brasileiro ia ficar quieto, assistindo a tudo passivo, moribundo como o homem do Planalto que sangra, sangra mas não morre. Fechando o ciclo desses 12 meses após o início das denúncias, manifestantes do Movimento de Libertação dos Sem Terra resolveram invadiram a pau e pedra a Câmara dos Deputados numa demonstração clara que nem todo mundo está parado, sem fazer nada. O ato de cara foi repreendido duramente pela grande imprensa, que os chamou de vândalos ao invadir a Casa do Povo. Mas, cá entre nós, o Congresso já deixou de ser do povo há muito tempo.

Thiago Mattos.

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sábado, maio 06, 2006

Legalize já

Sempre na primeira semana de maio, cerca de 200 cidades do mundo inteiro se organizam anualmente para promover a Global Marijuana March. Esse ano, o comitê da cidade do Rio de Janeiro resolveu inovar. Após concluir que apenas a reivindicação pela legalização da maconha em si não basta para encerrar a violência ligada ao tráfico de drogas, a Marcha pela Legalização das Drogas resolveu discutir também a legalização de outras drogas ilícitas como a cocaína, a heroína e o crack.

A manifestação que marchou pelo centro da cidade reuniu dezenas de corajosas pessoas – estudantes, profissionais liberais, militantes, ativistas e transeuntes entusiastas – chamando a atenção das pessoas que saíam do trabalho. Diferentemente do que se pensa, os organizadores – Movimento Nacional Pela Legalização das Drogas e a ONG Psicotropicus – não fizeram nenhuma apologia às drogas e tampouco houve o consumo de qualquer droga ilícita durante a passeata.

“Na nossa opinião, hoje a proibição das drogas é muito pior do que os efeitos nocivos das drogas em si”, declarou Renato Cinco, um dos organizadores da Marcha. Para ele, a política de proibição das drogas está falida e a violência (tanto a gerada pela disputa de pontos de vendas entre os traficantes, quanto a que envolve a repressão policial) é inerente à questão tal qual ela funciona. “Nós não estamos fazendo um movimento para estimular ninguém a usar drogas, mas para discutir com a sociedade uma outra abordagem do problema, uma abordagem que não traga a violência como conseqüência”, disse Cinco.

O tema levanta prós e contras e precisa ser entendido através de uma discussão ampla que supere os preconceitos. Segundo os organizadores da Marcha, a legalização das drogas acompanharia uma série de medidas paralelas, como a implementação de uma política de redução de danos dando assistência aos usuários dependentes. Precisaríamos de uma forte propaganda de esclarecimento e uma anti-propaganda ao consumo, tudo isso seria feito com o dinheiro que hoje é usado no combate às drogas e arrecadado com os impostos que elas proporcionariam.

A cidade do Rio de Janeiro, entretanto, apresenta uma realidade singular, diferente de qualquer outra cidade do mundo pela maneira como o tráfico de drogas opera. Com uma visão mais marxista podemos até perceber a luta de classes que sobe os morros e anda pelos becos das favelas cariocas seja na perseguição ao traficante, seja na criminalização do usuário. Assim, o discurso ideológico que vem se difundindo é o mesmo que justifica o uso da violência pelo Estado contra as populações mais pobres, que vivem nos morros.

A guerra cotidiana do tráfico no Rio de Janeiro criminalizou a pobreza e, desta forma, as favelas cariocas são tratadas como se fossem territórios inimigos. A polícia corrompida não mais protege; ela invade, ocupa e mata. O traficante, vítima do sistema que usa a droga como pano de fundo, é apenas um parafuso descartável de toda a engrenagem que movimenta grandes somas de dinheiro e poder. O usuário, jogado no mesmo caso de gatos, é achacado pelos mesmos policiais e culpado pelo seu prazer.

De qualquer forma, a discussão puxada pela Marcha não se encerra aqui. Precisamos trocar experiências, nos informar acerca dos interesses existentes por trás da política anti-drogas, entender o que e a quem o tráfico de drogas está sustentando e, antes de tudo, estarmos dispostos a reconsiderar nossa opinião. O tema é rico e a discussão é urgentemente válida.

Thiago Mattos.

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sexta-feira, abril 28, 2006

Quem é a América?

As freqüentes manifestações e protestos (até agora já foram mais de 50 por todos os estados americanos) contra a nova lei da imigração que está empacada no Senado demonstram a importância do tema que pode interferir diretamente na vida de pelo menos 11 milhões de pessoas que vivem nos EUA, na maioria latino-americanos, na maioria mexicanos.

Em Dezembro, os republicanos conseguiram passar um projeto de lei pela Câmara dos Representantes (onde votam os deputados) que dizia, entre otras cositas más, que todos os imigrantes ilegais devem ser deportados e as pessoas que os empregam devem sofrer punição. Além disso, também foi garantido pelos deputados o financiamento de uma espécie de muro de 1116 km na fronteira com o México. É a nova caça às bruxas da América.

Na contramão de alguns ‘cidadãos’ que querem se ver livres de outros não-cidadãos que estão ali para fazer o serviço sujo e girar as engrenagens da maior economia do mundo, está a Liga dos Cidadãos da América Latina (LULAC) que prepara uma ação punitiva aos produtos da cervejaria Miller, para castigá-la e envergonhá-la pelo apoio dado ao republicano James Sensenbrenner, de Wisconsin, autor do projeto de lei que causa tanta revolta entre os imigrantes.

A grande verdade é que os imigrantes que trabalham no país, legais ou ilegais, são os braços e as pernas dos EUA, que sem eles pararia. Pergunta: qual dos White Anglo Saxon Protestant construiriam as casas, fariam o serviço doméstico, dirigiriam os táxis, cortariam as gramas, colheriam tomates nas plantações, acabariam servindo no exército e iriam para o Iraque levando a ‘democracia’, enfim, quem faria o trabalho pesado e sujo? É claro que isso é uma generalização mas tirem os ilegais e vejam como seria. Um filme já tentou mostrar isso, mas quem sabe logo poderemos também visualizar na prática.

A nova lei, criminaliza não apenas os imigrantes não autorizados, que vendem sua mão de obra por um preço que poucos venderiam, mas também aqueles que lhes ofereceram ajuda humanitária. Dá para notar a fúria contaminada pelo medo anti-terrorista que os políticos vem usando para aumentar mais a ainda o medo do outsider. Com a consolidação da lei, ser imigrante não será apenas uma ofensa cível, será crime. E todos nós sabemos como são tratados os criminosos, não é mesmo?

O jornalista Juan Williams, que já escreveu bastante sobre os movimentos civis nos EUA na metade do século passado, tem alertado sobre a importância que os protestos contra a lei da imigração vem ganhando, reunindo cada vez mais um número maior de pessoas e importantes segmentos da sociedade; os protestos estão ganhando o mesmo impacto transformador.

Se a situação não mudar, os manifestantes prometem fazer uma paralisação no primeiro de maio. Desta forma, mostrarão a sua importância e sua existência, já que muitos ‘fingem que não existem’. De uma maneira ou outra, algo de bom precisa sair de tudo isso. Depois de livros que viraram best seller culpando os imigrantes pelos problemas do país e publicações que defendiam o fechamento do país, já estava mais que na hora do tema entrar no debate público e questionar o imenso clamor antiimigrante que vem tomando conta de país que se formou basicamente através da imigração e vem sendo habitado e desenvolvido, desde o desembarque dos peregrinos, graças a uma diversidade de culturas vital para a sobrevivência do país.

Thiago Mattos.

PS: O texto acima também foi escrito em inglês.

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sexta-feira, março 24, 2006

Você está aqui

É isso aí! A história está acontecendo. Daqui a um tempo, tudo isso estará nos livros de história e na boca do povo. Diremos coisas como “No meu tempo, eu entrava por trás no ônibus” ou “Eu sou do tempo que o PT era vermelho”. Mas a história acontece sem pedir licença e só nos resta escolhermos que papel ocuparemos nisso tudo.

Se você estivesse agora em Paris, onde estão tacando fogo na cidade e
os estudantes não param de protestar contra a lei do primeiro emprego, de que lado você estaria? Se estivesse no Iraque, onde os atentados já viraram rotina e a próxima vítima pode ser você, o que você estaria fazendo? Se sua sorte te pusesse nos desunidos Estados Unidos, o que você estaria comprando?

Podemos pensar em um monte de exemplos e muitos diriam: “Eu não queria estar preso em
Guantánamo” ou “Eu não queria ser uma mulher afegã”, mas essas coisas a gente não escolhe. Nos é dado uma realidade e dali pra frente é com a gente mesmo.

Acontece que somos brasileiros. Alguns de nós estamos asfixiados nas favelas, outros escandalizados no Congresso, outros vestidos pretenciosamente em seus paletós, outros fazendo blogs. Mas muitos não sabem onde estão!

Precisamos nos encontrar enquanto a história acontece para podermos decidir onde estaremos quando ela for contada: partes ativas e determinantes da nossa própria realidade ou apenas mansos espectadores perdidos.

Thiago Mattos.

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