Mentes doentias, idéias perigosas

Segundo esta lógica, pobre tem filho demais, o que gera ainda mais pobreza, que, por sua vez, gera violência. Desta forma, a legalização do aborto diminuiria o número de filhos indesejados, que teriam maior chance de se envolverem no crime, o que por sua vez, diminuiria a violência.
O fio condutor deste pensamento tem origem no livro Freakonomics, de Steven Levitt e Stephen J. Dubner, onde é divulgada a idéia de que a redução da violência nos Estados Unidos, no final do século passado, pode ser atribuída na sua maior parte à legalização do aborto.
Pura falácia – o estudo não leva em conta outros fatores, como a presença do crack na época, além de se basear em números absolutos de detenções, e não em médias per capita.
Seria muito mais conveniente à nossa realidade tomar como base dados do IBGE, que mostram a relação entre a alta fecundidade e a baixa educação e a renda; assim poderíamos adotar políticas públicas de informação e formação a quem precisa. Mas não, além do impulso ao plágio de modelos estrangeiros sem atentar para nossas especificidades, é mais fácil querer castrar todo mundo (como sugeriu um ser humano que não faria falta a ninguém), ligar as trompas de todas as “fábricas de produzir marginal” (frase do nosso governador), ou partir mesmo para o aborto das mulheres pobres.
A questão aqui em jogo não é a legalização do aborto – que deve ser discutida sim – mas a clara referência à eugenia. As mulheres pobres estão sendo pegas como bodes expiatórios de um problema social que envolve muito mais que uma simplificação preconceituosa de que o aborto diminui a criminalidade – até porque não podemos aceitar o pressuposto de que o crime vem apenas dos pobres.
Se fosse assim já teríamos a solução para os problemas da corrupção no Brasil: mães ou esposas de corruptos deveriam abortar ou serem esterelizadas a fim de conter o mal, principalmente na região do Maranhão, onde a média de filhos atinge 3,2 por mulher.
Thiago Mattos.
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