Quem são nossos presos?

São Paulo, o maior centro financeiro do país, finalmente se recupera depois de quatro dias refém do Primeiro Comando da Capital (PCC), uma facção criminosa que comandou uma onda de rebeliões dentro de 78 prisões. Os criminosos também promoviam do lado de fora das cadeias ataques a policiais por todo o estado, assim como o incêndio de ônibus, fóruns, agências bancárias e a morte de quase 70 pessoas.
Nesta segunda-feira (15/05), houve o maior congestionamento do ano na cidade e talvez tenha até registrado um recorde histórico:
A péssima condição do sistema carcerário brasileiro aliado à falta de uma integração entre as polícias federal, civil e militar, mais uma vez nos lembra que devemos tratar com seriedade este problema que faz vítimas impiedosamente. A ausência de organização federal contra o crime organizado e a fácil corrupção dos policiais, mal treinados e mal pagos, só pioram o problema.
Diferentemente do que ocorre no Rio de Janeiro, os criminosos de São Paulo estão muito mais organizados e centralizados. Os ataques coordenados, facilitados pelo uso de telefones celulares dentro das prisões, chamam a atenção pela maneira como operam. Detentos de outros estados também se rebelaram, obedecendo ordens vindas de São Paulo.
O dinheiro sujo gerado pelo tráfico de drogas e armas está criando redes que torna difícil diferenciar qual parcela vem de onde. Há também quadrilhas que se organizam pelo contrabando, pelo controle do recolhimento do lixo público ou dos transportes. Pouco a pouco, tudo se mistura. Logo, o dinheiro ilegal usado num financiamento de campanha eleitoral pode também ser o dinheiro manipulado pelos mesmos criminosos.
Pesquisadores e estudiosos apontam para a continuação dos ataques, seja dentro dos presídios ou nas ruas. O sociólogo francês Loïc Wacquant, professor de Berkeley e especialista no assunto, chama a atenção para o fato de que nas últimas décadas as elites políticas brasileiras têm usado o estado penal – a polícia, os tribunais e o sistema judiciário – como o único instrumento não só de controle da criminalidade como de distribuição de renda e de fim da pobreza urbana. O sistema penitenciário funciona como um “campo de concentração” para os muito pobres, segundo ele.
Por tudo isso, as causas do crime devem ser atacadas na raiz, não mais apenas remediadas. O próprio Estado propaga o preconceito de classe e de raça através da maneira como trata o assunto. Precisamos providencialmente enxergar que a falha está na desigualdade social mantida institucionalmente no Brasil. Episódios como o massacre do Carandiru ou o assalto do ônibus 174 nos lembram que enquanto ignorarmos a raiz do problema, a morte de inocentes será tratada como um acontecimento banal.
Thiago Mattos.
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