A turma do Capitão Gancho

Para a abertura do festival, foi exibido o polêmico Tropa de Elite, que aborda a problemática situação em que se encontra a Polícia Militar carioca, em especial a divisão do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais), cujo grito de guerra “entrar na favela e deixar corpo no chão” não deixa dúvidas da eficácia da corporação quando o assunto é matar.
Inspirado no livro Elite da Tropa (de Luís Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel), o filme já era notícia antes mesmo de sua estréia no festival, quando vazou na Internet e começou a ser vendido pelos camelôs da cidade. Foi aí então que o diretor José Padilha – o mesmo de Ônibus 174 – começou a chamar atenção com suas declarações condenando a “indústria da pirataria”, que, ironicamente, muito o ajudou com todo esse sucesso.
Como ressalta o Blog do Zé Pereira, José Padilha deveria brigar para que todo cidadão pudesse ter acesso ao seu filme, uma vez que este foi beneficiado pela política cultural de incentivo fiscal, ao invés de sair por aí querendo mais repressão a quem vende as cópias.
Se há uma demanda por um preço mais acessível a quem não pode consumir cultura (ir ao cinema, teatro, etc.) e por isso compra o “CD pirata”, da mesma maneira há uma demanda a quem precisa trabalhar vendendo os “maléficos” CDs, pois não há muitas opções de trabalho. Criminalizar a venda ou culpabilizar a compra, por si só, não encerra a questão.
Ignorar isso é ignorar a sociedade brasileira: o mercado informal existe, seja ele legal ou ilegal. E, se do ponto de vista jurídico não acham certo que outras pessoas “se apropriem” da obra de um artista para ganhar dinheiro, do ponto de vista social não é certo que apenas uma parcela da população se aproprie da cultura produzida com o dinheiro de todos.
De qualquer forma, o filme providencialmente cumpre o seu papel de atacar a pirataria e culpar quem consome a chamada ilegalidade, simplificando assim ainda mais a problemática das drogas e da corrupção, disfarçado sob o mesmo apelo social de filmes como Cidade de Deus.
Foi dado início à temporada de caça aos piratas e fica em aberto a discussão sobre a produção de cultura feita com o dinheiro público mas destinada a um seleto público: aqueles que podem se dar ao luxo de ter esta discussão da mesma forma que podem comprar a pipoca e o ingresso do cinema.
Thiago Mattos.